PRIMAVERA DE AMOR

(Coltrain's Proposal)
Diana Palmer



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Captulo I

O corte no joelho do garotinho era profundo e sangrava bastante. A Dra.Louise Blakely sabia exatamente o que fazer para ajud-lo, mas, ali na rua, era difcil exercer a presso correta sobre o corte.
- Est doendo!- protestou o garoto.
- S mais um minuto, querido. Se tudo correr como eu espero, sua me o levar para tomar sorvete ainda hoje.
Os olhos de Louise brilhavam intensamente no rosto emoldurado pelo cabelo cor de mel.
- Sorvete?Que legal!
A sirene da ambulncia j podia ser ouvida. Apesar de pequena, a cidade de Jacobsville possua uma assistncia mdica exemplar.
- Aposto como voc nunca andou numa ambulncia de verdade. Mas andar agora. E na Segunda-feira, quando for  escola, ter muito que contar aos amiguinhos. - disse ao garoto.
- Com o joelho to machucado talvez eu no v  escola na Segunda-feira- lamentou-se ele.
Louise sorriu e logo a ambulncia estacionou junto ao carro da polcia. Enquanto dois enfermeiros colocavam o garotinho na maca, ela trocou algumas palavras com o mdico, para descrever o ferimento e dar instrues.
Louise fazia parte da equipe do hospital para onde o menino seria levado, e pretendia seguir a ambulncia com seu prprio carro.
- Que sorte a senhora estar por perto-disse um dos policiais. - Pobre garoto. O corte parece profundo.
- Mas ele ficar bom-explicou ela, fechando a maleta de primeiros-socorros que sempre levava consigo.
- A senhora  assistente do Dr. Coltrain, no ?- indagou o policial.
- Sim, sou.
Ela preferiu no prolongar o assunto. Mas percebeu, pela expresso do homem, o que gostaria de dizer. A maioria dos habitantes da cidade sabia que o Dr. Coltrain dava pouca importncia  sua assistente. Aquilo ficara bastante claro durante os meses em que vinham trabalhando juntos.
- Ele  um excelente profissional. Tratou da minha esposa quando ela teve um grave problema no pulmo.
O policial sorriu. - muito eficiente e jamais perde a calma. A senhora tambm. Pelo que pude ver, sabe o que fazer numa emergncia.  
- Obrigada. Bem, agora preciso ir. - Louise sorriu e em seguida entrou no pequeno Ford cinzento.
A sala de emergncia do hospital encontrava-se lotada, mas isso era previsvel; os acidentes duplicavam no final de semana. Louise cumprimentou alguns dos funcionrios se ps a seguir a cadeira de rodas na qual Matt fora colocado. De repente avistou o Dr. Coltrain. De uniforme verde, acabava de sair de uma cirurgia.
- O que est fazendo aqui? No  seu sbado de folga?
- Parece que darei planto por ns dois-disse ele mal-humorado.
L vem ele de novo aplicando a primeira lei de Coltrain: sempre tire concluses apressadas. Pensou ela, divertida.
- Houve um acidente com um garotinho e por um acaso eu estava por perto quando aconteceu-comeou a explicar.
- O hospital paga gente especializada para atender a esse tipo de acidente-observou o mdico enquanto pessoas passavam por eles.
- Mas eu... -Louise comeou a protestar, porm foi interrompida.
- Espero que no torne a acontecer, caso contrrio terei que tomar srias providncias junto ao Dr. Wright Fui claro?
 Dr. Wright era o administrador do hospital. Coltrain era chefe da equipe, e como tal tinha autoridade suficiente para cumprir a ameaa.
- Quer me ouvir?- pediu, ela irritada-Eu no sa com a ambulncia! Nem estava aqui!
- A senhorita vem, doutora? Chamou uma das enfermeiras.
Coltrain fitou as duas mulheres, e em seus olhos azuis havia uma expresso intimidadora. Encarou Louise.
- Se sua vida social  assim to sem graa, aconselho-a a procurar mud-la- disse, com sarcasmo.
Como ele ousava falar com ele daquela maneira?
Os olhos de Louise pareciam soltar fascas. Ela estava to furiosa que no conseguiu articular uma s palavra. Abriu a boca para protestar, mas ele se foi sem dar-lhe a chance de se explicar. De qualquer forma, no adiantaria discutir. Para aquele homem, estaria sempre errada.
Seguiu-o com o olhar e viu-o afastar-se, apressado.  
- Algum dia ele ainda sofrer algum acidente e ,quando isso acontecer, vou adora engess-lo por inteiro!!
- Outra vez, doutora! Disse uma enfermeira ao passar por ali.
Corria uma piada entre os funcionrios do hospital a respeito de Louise sempre falar sozinha depois de uma discusso com o Dr. Coltrain. Com um profundo suspiro, ela procurou ignorar a brincadeira e foi ao encontro do garotinho.


Pouco depois, deixava a sala de emergncia. Usando jeans e camiseta, mais parecia uma adolescente do que uma mdica. Prendera o cabelo na nuca e no usava maquiagem para realar a boca adorvel e os enormes olhos cor de mel.
Mas porque maquiar-se quando no havia a quem impressionar? O homem a quem amava no a notaria nem se surgisse a seu lado usando plumas e paets.
Jeb Copper Coltrain no demonstrava o menor interesse por ela, exceto como uma assistente eficiente. No que algum dia a tivesse elogiado; muito ao contrrio parecia gostar de critic-la e a seu comportamento, fazendo-a perguntar-se por que motivo ainda a mantinha por perto. Ah, sim: Louise tambm se perguntava por que insistia em permanecer onde no era desejada.
O amor que sentia por Jeb Coltrain era sua nica desculpa. Mas algum dia isso no seria suficiente.
O Dr. Drew Morris, pediatra, o nico amigo que tinha na equipe, foi a seu encontro. Tambm terminara uma cirurgia.
- Voc por aqui? Mas hoje no  o planto de Copper? 
Apenas alguns privilegiados tinham a permisso de tratar o Dr. Jeb Coltrain pelo apelido, e ela no era um deles.
Louise sorriu. Drew era uma figura simptica e sorridente, que possua olhos e cabelos escuros. Fora ele quem ligara para o hospital em Austin, onde ela trabalhava, para avis-la que Coltrain estava  procura de uma assistente.  
Na ocasio, Louise ansiava pela chance de um recomeo. E, para seu espanto, aps dez minutos de entrevista, o famoso mdico a convidara para juntar-se a ele.
- Houve um acidente com um garotinho bem em frente  lanchonete onde eu estava almoando. Fui at l porque em casa nada havia que eu pudesse comer. Preciso fazer compras, mas detesto ir ao supermercado-acrescentou com uma careta.
- E quem no detesta? Ele sorriu. - Como est indo com Coltrain? 
Ela deu de ombros.
- Do jeito de sempre.
Drew balanou a cabea.
- E pensar que sou o culpado... Julguei que fosse para seu bem, mas parece que me enganei.
- Por favor, no se responsabilize.
Ela tremeu. No conseguiu desviar os olhos a tempo de esconder a mgoa.
- Julguei que uma mudana fosse fazer-lhe bem aps... Tudo o que passou- prosseguiu Drew- Trabalhar em Jacobsville me pareceu uma oportunidade cada do cu. Coltrain  um dos melhores cirurgies que conheo e voc  uma das mdicas mais eficientes. Ele suspirou-Como pude me enganar tanto?
- No se preocupe. Meu contrato  de um ano e est quase no fim.
- O que pretende fazer depois que sair daqui?
- Retornar a Austin.
- Por que no fica trabalhando na emergncia do hospital? brincou ele.
O trabalho na emergncia era to estressante que, s duas da madrugada e no meio de um exame desnecessariamente exigido por um famoso hipocondraco, um dos residentes abandonou seu posto e nunca mais pisou no hospital.
Louise sorriu ao lembrar-se do episdio.
- No obrigada. Eu gostaria de Ter meu prprio consultrio, mas ainda no posso me dar ao luxo. Enquanto isso no acontece, voltarei para Austin. Em algum hospital de l deve existir trabalho para mim.
- Lamento muito. Julguei-a perfeita para Coltrain.
- Diga isso  ele.  Louise deu um longo suspiro. - De qualquer forma, cansei desta rotina e preciso fazer algo para mudar.  
- Voc deve estar precisando de alguma distrao. Deixe comigo. Pensarei em alguma coisa. 
Louise observou-o afastar-se, apreensiva. Drew era gentil, um vivo que , que por muito haver amado a esposa ,aps cinco anos de solido ainda se mantinha fiel a ela. Embora o apreciasse nada queria do mdico alm da amizade.
Ao caminhar pelo corredor, em direo  sada e ao estacionamento, avistou Coltrain e, mesmo reduzindo o passo, no conseguiu evit-lo.
Recebeu dele um olhar gelado e respirou fundo, procurando acalmar-se.
- Pelo menos se vista como uma mdica se pretende andar por a com nossas ambulncias-disse ele rudemente.
- Eu no estava andando por a, doutor, e muito menos numa de suas ambulncias. Quanto s roupas 
Que uso fora do hospital, no so da... - Precisou controlar-se para no soltar um palavro. No so da sua conta!
Inesperadamente, ele a agarrou pelo pulso. Louise prendeu o flego, chocada. A violncia do gesto despertou-lhe instintos protetores, que julgara esquecido.
Mas no se moveu. Esperou, com os olhos arregalados, que ele a soltasse. Ao contrrio do pai dela, Jeb Coltrain jamais perdia o controle. 
O mdico soltou-a bruscamente, o olhar desconfiado.
- Fria como gelo-disse em tom de troa. - Congelaria qualquer pobre mortal que se aproximasse de voc.
Fora a coisa mais pessoal que ele j lhe dissera. E a mais insultante.
- Pense o que quiser. Para mim no faz diferena.
- Voc ficaria surpresa se soubesse o que penso. - respondeu ele. Olhou para a mo que a tocara e riu.  Congelada.
Vai ver que  por isso que Drew Morris ainda no se animou a conquist-la.
Louise dirigiu-lhe um olhar fuzilante, ao mesmo tempo em que se afastava apressada. Alcanou o estacionamento e passou pelo carro dele sem sequer olhar. O comentrio a magoara, mas felizmente no o deixara perceber quanto.
Louise insistia em dizer que aquilo que ele pensava no a afetava, mas a verdade  que afetava, e muito. Coltrain a julgava uma mulher fria, o que no era verdade.  
Ele mexia com seus nervos sempre que estava por perto ou a tocava. Nestas ocasies, no conseguia pensar com clareza ou fazer com que suas pernas parassem e tremer. A soluo era manter-se distante daquele homem.
Tinha motivos de sobra para evitar qualquer envolvimento com pessoas temperamentais, mas, apesar de seus esforos, a convivncia com Coltrain estava se tornando uma provao.


Dirigiu at a pequena casa branca situada nos arredores da cidade, num bairro tranqilo que comeava a crescer. O aluguel era bastante razovel.
Ela costumava passar os fins de semana pintando e cuidando da decorao. Os mveis, que ia comprando aos poucos, refletiam seu temperamento calmo. J providenciara algumas peas decorativas para a sala de estar, como uma escultura em forma de gato que colocara sobre a lareira, os vasos de cermica indiana e os exticos instrumentos musicais que colocara na estante. Os quadros haviam sido pintados por ela mesma, alguns em tons berrantes. Nunca recebia visitas.
Quanto a Coltrain, ocasionalmente dava recepes no rancho onde morava. E, quando isso acontecia, invariavelmente Louise era excluda da lista de convidados. Esse fato gerava muitos comentrios. No entanto, ningum jamais ousara question-lo. 
Louise, por outro lado, no se importava com isso. Secretamente, suspeitava que o constante mau humor do chefe fosse provocado por Jane Parker, uma antiga namorada. Bela, loira, de olhos azuis, ex estrela de rodeios, bastante generosa e comunicativa, ela se casara h pouco com Todd Burke, deixando todos surpresos.
Por diversas vezes ela tentara adivinhar, sem sucesso, por que Coltrain concordava em trabalhar ao lado de uma pessoa a quem detestava. Tentara descobrir isso por intermdio de Drew, mas o mdico sempre arranjava um jeito de mudar de assunto.
Drew fora aluno do pai de Louise durante o perodo de residncia e desde ento passara a freqentar a casa da famlia.  
Nos tempos difceis, o jovem mdico se tornara um verdadeiro aliado da me de Louise, embora no gostasse muito do antigo professor. Sabia demais da vida particular dele, e revoltava-se com a atitude autoritria e  vezes cruel que mantinha com a esposa e a filha.
Houve muitos comentrios quando Louise comeou a trabalhar como assistente do Dr. Coltrain, h um ano. Ela chegara a ouvir uma das enfermeiras comentar que seria um estorvo ter a filha do Dr. Blakely clinicando ali, e que sua presena iria perturb-lo. Louise teve vontade de perguntar a quem sua presena poderia perturbar, porm desistiu.
Ficou sem saber a quem as enfermeiras se referiam e por que essa pessoa se sentiria perturbada com sua presena. Foi ento que comeou a suspeitar que seu pai fizera algo no exatamente elogioso quando trabalhara ali. 
- Drew? Voc saberia me dizer qual  o mistrio? O que foi que meu pai fez aqui no hospital?- perguntou certa vez ao amigo, durante um planto.
Drew foi pego de surpresa.
- No sei de nenhum mistrio. Sei pai foi um dos cirurgies da equipe, como sou hoje.
- Mas deixou o hospital em circunstncias meio estranhas. Transferiu-se para Austin e nunca mais retornou a Jacobsville.
- Pelo que sei, ele era bastante respeitado como mdico. Mesmo pssimo como marido e pai, foi um cirurgio excepcional.
- Ento porque tantos comentrios a respeito dele?
- Se existem comentrios, posso assegurar que nada tem a ver com a habilidade de seu pai como cirurgio, e certamente nada que possa preocup-la.
- Mas, ento do que se trata?
Naquele momento, haviam sido interrompidos, e Drew pareceu ficar aliviado. Louise no tornou a tocar no assunto, embora sua curiosidade aumentasse a cada dia.
Fosse qual fosse o problema o fato era que ela imaginava que talvez tivesse afetado o Dr. Coltrain. Por isso ele era agora a hostilizava. Mas, com certeza, num ano inteiro o mdico teria feito algum comentrio a respeito.
J no esperava chegar a entend-lo. No entanto, Coltrain no fora sempre to desagradvel.  
No incio, chegara a trat-la com gentileza, mas de uma hora para outra se tornara frio e ranzinza. Desde ento, parecia sempre fita-la com reprovao.
O comentrio daquela manh, sobre sua frieza, era uma ofensa antiga. Na primeira festa de Natal que passara em Jacobsville, Louise o empurrara para evitar um beijo indesejado. No conseguia imaginar aqueles lbios sensuais no seu. S de pensar nisso, tremia. Atrao que sentia por aquele homem fora explosiva e imediata, uma experincia assustadora para algum que dedicava a vida aos livros e a estudos incessantes.
Louise jamais tivera vida social, mesmo quando cursava a faculdade.
As boas notas e o nome na lista dos melhores alunos, eram as nicas coisas que continham o sarcasmo e a brutalidade do seu pai. Se estudasse com afinco e ganhasse prmios, bolsa de estudo, o pai se orgulhava da filha. Chegava a achar que ele amava mais as conquistas que obtivera do que ela prpria.
Autoritrio por natureza, Fielding Blakely fora piorando com o tempo, e tornara-se cruel quando suas ambies chegaram a galgar patamares mais elevados. A me de Louise morrera nas mos do marido..
Ela o amava tanto que no se dava conta das suas maldades ignorava sua brutalidade, seu vcio, sua crueldade.
Louise sentiu um arrepio e abraou a si mesma. Jamais se casaria, porque no conseguiria sobreviver a nenhum relacionamento neurtico. Achava que tudo o que uma mulher precisava fazer para aniquilar-se era apaixonar-se, perder o controle e entregar-se aos desejos de um homem.
At mesmo o melhor deles se tornava cruel ao menor sinal de vulnerabilidade numa mulher. Arrepiou-se. Jamais ficaria  merc das vontades de um homem, como sua me fizera.
Coltrain a fazia sentir-se vulnervel.
Era por isso que no se deixava levar pelas emoes que ele lhe despertava no queria tornar-se vtima dos sentimentos. A solido em que vivia podia ser um mal, mas com certeza um mal menos devastador do que o amor.  
O telefone tocou e a trouxe de volta  realidade.
- Dra.Blakely?
Era Brenda, a enfermeira da clnica de Coltrain. Os dois se revezavam, atendendo o hospital e a clnica.
- Ela mesma.
- Desculpe incomod-la em casa - continuou Brenda-, mas houve um acidente no norte da cidade, e esto enviando as vtimas para c. O Dr. Coltrain est numa cirurgia no hospital, e pede  senhora que venha at aqui.
-Claro. No demoro-prometeu ela, ao desligar.


A clnica agora se encontrava deserta. L fora, a noite estava clara e estranhamente quente para o comeo de dezembro.
- No sei como o Dr. Coltrain suporta esta vida. - disse Brenda, com um suspiro, aps atender o ltimo paciente e fechar a clnica.  Nunca chega em casa antes da meia-noite.
- Ainda bem que no  casado- comentou Louise. Brenda sorriu.
-  verdade, mas creio que devia pensar no assunto. Afinal, j completou trinta anos, e o tempo no para de correr. Passou o cadeado na porta antes de continuar:-Pena que as coisas no tenham dado certo entre ele e a Srta.Parker.
- Pareciam ter nascido um para o outro, mas quem os conhecia de perto sabia que, dos dois,ele era o nico apaixonado.
- Nem sempre as coisas acontecem como esperamos-comentou Louise, pensando enquanto daria para ver o Dr. Coltrain to desamparado e indefeso quanto ela se sentia naquele momento, mas era apenas uma fantasia.
- No achou surpreendente o caso de Ted Regan e Coreen Tarleton? Casaram-se inesperadamente, sem que ningum sequer suspeitasse que estavam apaixonados!Brenda deu uma risadinha.
- Muito surpreendente-concordou Louise ,sorriu ao lembrar-se de Ter cuidado do Ted.
- Eu os vejo ao menos uma vez por semana, a caminho do obstetra.
- Ela deve dar  luz brevemente- observou a enfermeira.- Coreen ser uma boa me , o Ted um bom pai. Essa criana ser feliz.
Brenda percebeu que havia mgoa na voz de Louise, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, viu a despedir-se e partir.  
Nem imaginava que ela passaria o final de semana lendo pesquisas recentes sobre uma bactria, originada de mutao genticas, que causara muitas mortes na virada do sculo XX.

Captulo II

Na segunda feira, Louise estava de volta a sua rotina de trabalho. Como assistente de Coltrain, deveria assumir a clnica quando ele estiver fora, ou no hospital. Mas o mdico sempre dava um jeito de pegar os casos mais interessantes e os maiores desafios. Para ela sobravam apenas fraturas e resfriados. Coltrain fora frio naquela manh, ao chegar na clnica. Provavelmente ainda ruminava a discusso que haviam tido no sbado, no estacionamento do hospital. Ela entrou na sala de exames e suspirou, irritada, ao checar uma radiografia. A pior coisa de um amor indesejado  que alimenta a si prprio. Quanto mais Coltrain a ignorasse, mais ferrenhas se tornariam suas batalhas contra os prprios sentimentos. Jamais lhe ocorrera casar-se, envolver-se emocionalmente com algum. No entanto Jeb Coltrain fazia com que pensasse constantemente em tais possibilidades. Durante anos ele estivera apaixonado por Jane Parker que o trocara por Burk. Louise a muito perdera a esperana que algum dia Coltrain fosse gostar dela como gostara da ex-noiva.
No se sentia feia e sem atrativos; possua um longo cabelo escuro, grandes olhos cor de mel e tinha a pele clara, suave. Era alta e esbelta. Faltava-lhe o temperamento impetuosos e autoritrio do mdico. Alto, de ombros largos, cabelos ruivos, olhos azuis e uma covinha no queixo, Jeb Coltrain parecia to perigoso e atraente quanto um aventureiro do sculo passado. Mantinha na pele um atraente tom bronzeado, adquirido no rancho. Usava roupas formais, sobre as quais colocava o guarda p branco. Talvez fosse mais descontrado fora do trabalho, mas isso jamais saberia, uma vez que...
- H uma ligao para voc na linha dois.  o Dr. Morris- a enfermeira avisou.
- Obrigada, Brenda
Pegou o telefone e distraidamente apertou o boto de outra linha. Antes que se desse conta do erro, reconheceu a voz de Coltrain:
-... no a teria aceitado como minha assistente se soubesse de quem se tratava! Droga quando optei por fazer o favor que voc me pediu, no podia imaginar que ela fosse filha de Blakely. Jamais o perdoarei pelo mal que me causou. E Louise faz com que eu me lembre dele o tempo todo. E um verdadeiro tormento! 
- Entendo, Cooper-disse Drew.
- Ela  uma cruz que tenho que carregar. Mas, respondendo  sua pergunta, no me importo que saia com ela. Louise Blakely no me desperta o menor interesse. Leve-a, e com minha beno. Eu daria qualquer coisa para tira-la da minha vida , e logo!
Em seguida, um clique indicou que a linha estava aberta para ela.
- Dra. Louise Blakely falando....
- Lou?  Drew. Est ocupada?
- No. - Limpou a garganta e tentou controlar as emoes- . Estou livre. No que posso ajud-lo? 
- Que tal um jantar comigo na quinta feira?
Ela e Drew saam ocasionalmente, mas apenas como amigos. Se no tivesse ouvido o que Coltrain dissera, dessa vez teria recusado o convite.
- Por que no?
Ele riu gentilmente.
- timo, garota. Pego voc s sete na quinta-feira, est bem ?
- Estarei esperando.
Louise retornou ao trabalho sem demonstrar o que sentia. Ao terminar de atender o ltimo paciente, pegou mecanicamente uma folha de papel. Viu seu nome junto ao de Coltrain impresso no cabealho e lembrou que os blocos precisariam ser trocados.
Aps terminar de escrever a carta de demisso, colocou-a num envelope e deixou sobre a mesa do mdico. Estavam no horrio de almoo, e ele acabara de sair.
Caminhou para a porta como um autnomo e s parou ao ouvir a voz de Brenda.
- Esqueceu de tirar o guarda-p,  doutora?
- Oh, sim, claro...
Retornou  sala, tirou o guarda-p e colocou dentro do armrio. Saiu em seguida.


Naquele momento, o que mais desejava era ter algum com quem conversar, contar seus problemas.  
No entanto, tomava caf sozinha no pequeno restaurante da esquina. No era de fazer amizades facilmente, e na verdade preferia ficar s. Quando no estava trabalhando, no permitia que estranhos se aproximassem. Mas nem se dava conta disso.
Olhou fixamente para a xcara e lembrou de cada palavra que Coltrain dissera. O mdico deixara claro que a desprezava. Bem, talvez fosse de fato desprezvel. Seu pai quando vivo, parecia achar o mesmo,pois queixava-se constantemente dela, dizendo que seria uma eterna perdedora.
- Com licena....
Ela ergueu os olhos e deu com a garonete.
- Pois no?
- Deseja mais alguma coisa?
Louise tentou esboar um sorriso, sem muito sucesso.
- No, obrigada. Na verdade, hoje no estou com muita fome.
A garonete entregou-lhe a conta, que Louise pagou.
- Se precisar de alguma coisa,  s chamar-disse a moa. Sorriu e afastou-se.
Louise tomava o ltimo gole de caf quando Coltrain entrou apressado no local. Tinha uma expresso zangada e olhava em torno como se procurasse algum. Em seguida avistou-
 Deve haver alguma emergncia , pensou ela enquanto o mdico se aproximava e depositava o envelope aberto sobre a mesa.
- Pode me dizer o que significa isso?  indagou num tom perigosamente calmo.
Louise ergueu os frios olhos dourados.
- Meu pedido de demisso.  
- Isso eu j sei. Quero saber por que resolveu demitir-se.
Ela olhou ao redor e percebeu que o restaurante estava quase vazio. Apenas um rapaz e a garonete prestavam ateno a eles. Ergueu o queixo com altivez antes de responder:
- Se no se importa, prefiro no discutir assuntos particulares em pblico.
Ele cerrou os dentes, zangado.
- Muito bem. Se terminou de almoar eu gostaria que me acompanhasse. -disse, e recuou, permitindo que ela se levantasse.
O corao de Louise disparou quando ele guardou o envelope no bolso e pegou-a pelo brao para gentilmente conduzi-la  sada.
Ela j havia tirado as chaves do carro de dentro da bolsa, mas Coltrain a impeliu na direo contrria ao estacionamento, at uma praa que ficava perto dali. Era dezembro, o ar estava frio, e as rvores pareciam tristonhas sem as folhas.No entanto, o nervosismo a fazia transpirar.
Ele as obrigou a sentar-se num dos bancos e permaneceu em p,com uma das pernas apoiadas num tronco de rvore.
- Porque essa deciso sbita?
- No  to sbita assim. H tempos venho planejando voltar para Austin. De qualquer forma, o contrato que assinei  de um ano e est para terminar.
- Por que voltar para Austin? No h ningum  sua espera naquela cidade.
- H sim, meus amigos. E estou certa de que a mudana me far bem.
- Pelo que sei, o nico amigo que possui  Drew Morris.
Louise brincava com as chaves e olhava para a prpria mo, sem demonstrar suas emoes.
Os olhos de Coltrain seguiram os dela e algo novo surgiu em sua expresso. O mdico pegou-lhe a mo rgida, abriu-a e franziu a testa ao notar os vincos vermelhos que as chaves haviam produzido.  
Louise podia ouvir as batidas frenticas do prprio corao e detestou aquela falta de controle. Puxou a mo. Coltrain recuou um pouco, e j no havia o menor trao de rancor nele.
- Nenhuma parceria se torna bem sucedida do dia para a noite- disse ele- Voc deu menos de um anos  nossa.
- Exato.
A nfase colocada na palavra chamou a ateno dele.Fitou-a com os olhos azuis estreitados.
- Parece at que no colaborei para que desse certo.
Ela manteve os olhos fixos no do mdico.
- Para que desse certo, precisaramos manter um relacionamento no mnimo razovel, e tolerar um ao outro. Voc no gosta de mim, disso eu suspeitava ,mas esta manh, aps o que disse a Drew...
- Voc ouviu a nossa conversa?- indagou ele, com a voz rouca-Ouviu ...toda a conversa?
- Quase toda.
Coltrain tentava se lembrar daquilo que dissera a Drew num momento de exploso. Costumava falar sem pensar quando se esquentava, mas depois se arrependia. Dessa vez, porm, lamentava-se ainda mais.Nunca lhe ocorrera que Louise , com aquela aparncia fria e distante,pudesse ter um corao.
No entanto, nos ltimos cinco minutos descobrira coisas incrveis sobre ela, e sem que uma s palavra fosse dita. Magoara-a sem querer, mas havia uma explicao para isso. Estava desnorteado porque acabara de diagnosticar leucemia num garotinho de quatro anos, e aquilo o deprimira.
Descontara em Drew Morris, agredindo Louise. Mas no podia imaginar que estivesse sendo ouvido. Agora ela queria ir embora e com razo. Estava sinceramente arrependido e temia que Louise jamais fosse acreditar em seu arrependimento.
- Voc me contratou apenas para fazer um favor a Drew.Bem , agora est livre para contratar quem bem desejar.
- Espere um pouco....
- Prefiro no continuar discutindo.Estou cansada de brigar com voc. Se sou um estorvo, como disse, deve alegrar-se por se ver livre de mim.Mas no pretendo deix-lo na mo.Ficarei at que encontre algum que me substitua- disse ela, e levantou-se.  
Coltrain desesperou-se. Detestava explicar o motivo de seus maus humores.
- Voc precisa entender. s vezes digo coisas que no estou sentindo. Fiquei arrasado com a notcia da leucemia do garoto.
- Ambos sabemos que voc foi absolutamente sincero quando disse aquilo. Sempre me detestou e na verdade s vezes mal conseguia ser civilizado comigo.Como eu poderia adivinhar que guardava tanto rancor contra mim?
Louise percebeu uma sutil mudana na expresso dele. Era como se suas palavras despertassem lembranas antigas.
- Ento voc tambm ouviu essa parte da conversa?
- Infelizmente. Mas, afinal ,o que houve? Meu pai causou a morte de algum?
Coltrain manteve silncio por um momento. Louise trazia  tona recordaes muito antigas que continuavam dolorosas e que ele preferia guardar no corao. Mas talvez fosse melhor falar. H um ano vivia fingindo.
- Seu pai engravidou a mulher com que eu iria me casar e depois a convenceu a fazer um aborto. Assim ,eu me casaria com ela e jamais descobriria o que haviam feito. S que ele no contou com as complicaes que quase a mataram aps a cirurgia, que ele mesmo fez. O conselho mdico do hospital convidou-o a demitir-se.
- Oh, no !
Louise empalideceu. Sua me chegara a saber disso? E o que acontecera  moa?
- Poucas pessoas souberam, e duvido que a histria tenha chegado aos ouvidos de sua me-explicou Coltrain, como se tivesse adivinhado seus pensamentos-Ela sempre me pareceu uma excelente pessoa e no merecia o marido que tinha.
- E sua noiva? O que aconteceu com ela?  
- Deixou a cidade e casou-se com outro. - Coltrain enfiou as mos nos bolsos da cala e a fitou. Se deseja saber toda a verdade, poderei lhe dizer. Drew ficou penalizado quando voc ficou sozinha no mundo aps o acidente que matou seus pais e a recomendou quando soube que eu procurava um assistente. No fiz ligao com os sobrenomes. Irnico, no? Escolhe justamente a filha do homem que odiei at o dia de sua morte.
Louise o fitou, com uma expresso ansiosa no rosto bonito e pequenos pontinhos dourados brilhando nas profundezas dos olhos cor de mel.
- Por que no me contou? Eu teria entendido!
- Voc no estava em condies de receber mais esse golpe - disse ele, lembrando-se da fisionomia sofrida que notara na primeira vez que a vira. -Alm disso, o contrato j havia sido assinado e a nica maneira de corrigir isso era voc se demitir.
Agora tudo fazia sentido.
- Ento foi por isso que agiu daquele modo? Para que eu no agentasse a presso e desistisse?Ora, mas...como eu poderia adivinhar?
- Voc foi mais forte do que eu imaginava e no cedeu um s milmetro. Manteve-se inflexvel. Coltrain mexia as chaves no bolso enquanto a observava. - H muito tempo ningum me enfrentava dessa forma.
Ele no precisava estar dizendo isso. Todos em Jacobsville eram complacentes com o mau humor do Dr. Coltrain. S Louise o encarava de igual para igual..Devido ao temperamento de seu pai, desde cedo aprendera a no demonstrar medo ou resignao, e agora aplicava a mesma regra a Coltrain .Algum com uma personalidade mais frgil no teria resistido um ms quilo tudo.
Em relao ao pai, Louise procurara sempre manter as emoes sob controle; era perigoso deix-lo perceber que a magoava.porque ele gostava de magoar.E agora como se fosse um castigo, o homem a quem amava desprezava-a justamente por ser filha do Dr. Blakely.
Drew Morris fizera o que julgara melhor para ela. Mas obviamente subestimara o amigo, pensando que ele no se importaria em te-la como assistente.  
Coltrain a fitava ,sem piscar.
- Um ano, um ano inteiro lembrando o que seu pai aprontou.  vezes eu tinha vontade de fazer qualquer coisa para que voc fosse embora. V-la j era doloroso.
Aquela foi a ltima gota. Louise o amava tanto e, em contrapartida ,tudo o que ele via quando a fitava era uma mulher cujo pai o trara.Por isso a desprezava.
Na verdade,Fielding Blakely fora apenas um pobre diabo viciado em drogas,que roubava narcticos do hospital onde trabalhava. Ele estava drogado quando o jatinho que insistiu em pilotar chocou-se contra as montanhas, matando-o e  esposa.
Lgrimas inundaram os olhos dourados de Louise, sem que ela dissesse uma s palavra. Coltrain espantou-se; j a vira irada, cansada, indiferente, furiosa e at mesmo frustrada, mas jamais a vira chorando. Tocou seu rosto levemente com a ponta dos dedos, como que para certificar-se de que as lgrimas eram verdadeiras.
Ela o afastou chorosa.
- Voc foi to frio comigo... Drew jamais tocou no assunto. E eu fui tola o suficiente para sonhar... Que idiota!
Voltou-se e afastou-se apressada. Coltrain no fez um s movimento para impedi-la.  

     
Nos dias que se seguiram, Louise manteve-se corts, educada, porm distante em relao a Coltrain.Mas alguma coisa havia mudado no relacionamento de ambos.Quanto ao mdico, estava ciente da sutil diferena na atitude dela. Agora no mais o seguia com o olhar nem o procurava. Se tinha alguma duvida, escrevia o que desejava saber e colocava o bilhete sobre sua mesa.Deixava com Brenda os recados a ele dirigidos.A nica vez que conversaram ,foi na quinta feira  noite, enquanto fechavam a clnica.
- Encontrou algum para me substituir?- perguntou ela, educadamente.
- No. Porque a pressa?-indagou Coltrain, fitando-a com curiosidade.
- E que eu gostaria de estar em Austin no Natal.
- No seja tola. Voc jamais conseguira viver naquela agitao. Vai odiar. - sorriu indulgente. E uma excelente profissional e j fez seu nome aqui.
Vindo dele, aquele era um grande elogio. Louise olhou-o por sobre o ombro.
- Mas o que voc tem com isso? No disse que me detestava?
O mdico nada responder. No havia como contra argumentar. Louise lanou-lhe um ltimo olhar e o deixou.  

     
Ela decidiu usar um discreto vestido preto de crepe ao sair com Drew para o jantar do Rotary Clube. No rosto aplicara uma leve maquiagem e o cabelo loiro, brilhante, caia solto at pouco abaixo dos ombros. Para Louise, a aparncia a muito tempo deixara de ter importncia. Mas a verdade era que, mesmo sem ter feito nenhum esforo, estava atraente como nunca, e Drew notou isso.,mas , ao tentar pegar-lhe a mo , foi solenemente afastado. Suspirou, resignado.
Louise era uma caixinha de surpresa. Queria-lhe muito bem, e no desejava arriscar-se a ofende-la.Segurou-a pelo brao ao entrar no salo e Louise prendeu o flego ao avistar Coltrain. Sua presena ali era uma surpresa.
Pelo que ouvira falar, ele raramente comparecia a eventos sociais, tentou descobrir se estaria acompanhado e no demorou muito para saber disso. Havia uma bela loira agarrada a seu brao, como se ele fosse um passaporte para o cu. O mdico, no entanto, no parecia prestar ateno  acompanhante. Mantinha os olhos fixos em Louise. Nunca a vira com o cabelo solto, e achou-a mais encantadora do que nunca. A mdica, porm acompanhava Drew. Que ultimamente parecia mostrar-se muito interessado nela.
Mas era difcil imagin-los na cama. Louise era uma mulher de princpios rgidos. Era possvel perceber isso pelo estilo sbrio de suas roupas, pelo modo como trazia o cabelo sempre preso atrs da nuca. S porque naquela noite usava o cabelo solto no significava que deixara de ser inibida. Entretanto, a mudana era adorvel e para seu desespero, perturbava-o muito.
- Cooper est com uma nova namorada-comentou Drew com um sorriso. - O nome dela  Nickie Bolton, uma das enfermeiras do hospital. Um verdadeiro avio, mas quando abre a boca...meu Deus tenho pena dele.  
- No a reconheci sem uniforme.  muito jovem para ele, no acha?- Louise comentou com um sorriso, indulgente.


Do outro lado da sala, Coltrain tentava se controlar. Louise sempre evitava envolvimentos. H poucos dias, quando atendiam um pequeno paciente, acidentalmente suas mos se tocaram, e ela se afastara no mesmo instante. No entanto, l estava agora, permitindo, que, Drew segurasse sua mo... E ainda por cima sorria, maravilhada. Jamais sorrira para ele daquela forma, na verdade, de nenhuma outra forma. 
- Copper? Estou aqui, lembra-se? -queixouse Nickie. - Pare de encarar sua assistente. Vocs esto de folga hoje esta noite e no precisaro brigar. - deu uma risadinha.
- Onde  que voc quer chegar?
- Ora, Cooper, todo mundo sabe que ela  um espinho atravessado em sua garganta. A piada mais constante do hospital  que voc implica tanto com a pobrezinha que a faz falar sozinha pelos corredores, louca de dio. O Dr. Simpson j a encontrou aos prantos na enfermaria. - Nickie olhou na direo da Dra. Blakely. Acho-a bonita, e deve possuir um carter forte. Provavelmente lutou contra fortes preconceitos para ter chegado onde est.
Coltrain ficou realmente intrigado. At aquela tarde ,jamais vira Louise chorar e no conseguia imagin-la sofrendo por sua causa, por suas exploses temperamentais. Mas, se era to sensvel, sabia como ningum dissimular os prprios sentimentos.  

    
 Captulo III

Durante o jantar, ela sentou-se o mais distante possvel de Coltrain. Mas era um tormento ver Nickie, toda dengosa, acariciando-o daquele jeito. Sorte que Louise conseguia dissimular, manter uma fisionomia neutra. Quem a fitasse, no notaria, em seu olhar, nada que denunciasse aquilo que sentia.
Ao deixar o local, permitiu que Drew a conduzisse pela mo. Mais atrs , Coltrain os observava, contrariado. Os quatro acabaram se encontrando no estacionamento.
- Bela cirurgia a desta manh, Cooper. Voc possui mos de artista. Duvido que a Sra. Blake fique com alguma cicatriz.
- Coltrain esboou um sorriso e segurou a mo de Nickie.
- Tomara. Aquela mulher  perfeccionista. Ai de mim se restar uma s marquinha.
- Ento a coitada deve sofrer muito nesse mundo de imperfeies. Drew deu uma risada. -Te vejo amanh. Preciso de um conselho sobre um paciente. A me insiste em extrair tudo, as amgdalas e  adenides, mas no creio que haja necessidade.Talvez ela o escute.
- No tenha tanta certeza disso. Mas, se quiser posso dar uma olhada.
- Eu ficaria muito grato.
Coltrain olhou para Louise, que at ali no dissera uma s palavra.
- Chegou dez minutos atrasada esta manh, doutora. - disse friamente
- Lamento, mas dormi demais.  muito cansativo sair por a na ambulncia  procura de algo com o que passar o tempo. -ela respondeu irnica. Lanou-lhe  um sorriso frio e entrou no carro antes que ele entendesse a piada.
- Tente chegar na hora amanh. - advertiu o mdico antes de afastar-se, com Nickie pendurada em seu brao.
- Tente chegar na hora amanh - Louise o imitou, j ao lado de Drew, dentro do carro.Suas mos seguravam a bolsa com uma fora incomum.- Ele que espere.
Cooper faz isso de propsito. Gosta de vla irritada.
Deve Ter ficado feliz com a minha demisso. Mas asseguro que me senti muito mais aliviada do que ele.
Drew tentou disfarar um sorriso.
- Se  o que voc diz, acredito.
Muito nervosa Louise no parou de mexer na bolsa durante todo o trajeto.
- Desculpe Drew. Creio que no fui uma boa companhia. - Disse, j diante da porta de casa.
- Voc foi perfeita.- Drew  ergueu-lhe o queixo com a ponta dos dedos.-O problema e que ainda no aprendeu a lidar  com Cooper.Est aborrecida e com razo.Esta noite ele foi demais.
- Ele  intratvel. Mas no foi sempre assim.Tudo comeou na festa de Natal do ano passado.
- Houve algo entre vocs na festa?
Ela deu de ombros.
- Coltrain tentou me beijar e eu no permiti. Devia Ter bebido alm da conta, porque me segurou pelos ombros e me sacudiu, como se eu fosse uma boneca.
- Srio?
- Srio. At hoje tremo s ao v-lo se aproximar.  forte e quando fala comigo sempre tenta me segurar pelos braos ou pelos ombros. Parece que faz de propsito, s para me perturbar.
- No quer me falar sobre isso?
-  melhor no. Creio que  tolice minha.
- No, no  tolice. No  normal ficar to abaladas s porque algum a toca.
- Mas no acontece com todos, somente com ele.
Drew fitou-a com as sobrancelhas erguidas, mas ela no pareceu dar-se conta daquilo que acabara de confessar. Suspirou e esfregou a nuca com a mo.
- Engraado...Estou terrivelmente cansada,e no costumo sentir-me assim aps um longo dia de trabalho.
Drew tocou-lhe a testa e fitou-a, intrigado.
- Voc est febril. Como se sente?
- Com dores no corpo todo. E desanimada. Ela sorriu.- Mas no  nenhuma surpresa. Sempre me resfrio no inverno.
- Tome duas aspirinas e v para a cama. Se no acordar disposta, no v trabalhar.- Aconselhou Drew.
- Vou ficar bem . No adianta tomar remdio quando o resfriado ataca, e voc sabe disso.
Ele riu.
- Tem certeza de que no precisa de nada?
- Tenho, obrigada. Seguirei seu conselho. Agradeo pelo jantar. Apesar de tudo, foi muito agradvel.
- Tambm achei Sabe que no me animo muito para sair, mas s vezes a solido pesa. J faz cinco anos, e ainda sinto falta dela.
- No pensa em tornar a se casar?
- No  disse ele, comovido. - Posso parecer um pouco fora de moda, mas prefiro as lembranas dos doze anos que passei com ela do que cem vividos com outra pessoa.
- Eve foi uma mulher de sorte.  raro uma pessoa ser to amada assim.
- Era recproco.
- Tenho certeza que sim. - Beijou-o no rosto. -  bom Ter  um amigo como voc.
- Isso tambm  recproco. Poderamos sair mais vezes. Talvez assim as fofocas a meu respeito cessassem.
- Eu adoraria. Tambm no saio muito, mas  uma questo de hbito. Foram  oito longos anos s  voltas com livros de medicina. Sobrava pouco tempo para namoros. - Uma sombra de tristeza desceu sobre seus olhos. - E eu no fazia questo. O casamento de meus pais me deixou traumatizada. No acredito que duas pessoas consigam ser felizes juntas, amando-se e confiando uma na outra. - Parou de falar, meio embaraada.
- Lamento muito sobre seu pai.
- O Dr. Coltrain me contou a verdade dele e de sua ex-noiva.
- Ele...fez isso?
Louise assentiu.
- No dia  em que voc ligou, convidando-me para o jantar sem querer ouvi a conversa de ambos.
- Oh, sinto muito!
 - Pedi demisso naquele mesmo dia, e pretendo voltar para Austin. De qualquer modo, meu contrato terminaria no final do ano. No admira que Coltrain guarde tanto contra mim. Depois do que meu pai fez....Voc no deveria ter insistido  para que ele me contratasse.
Minhas intenes foram boas. - Drew fitou-a atentamente. Julguei que voc pudesse ajud-lo. Coltrain estava apaixonado por Jane Parker, que no correspondia a esse amor. Ele  do tipo que dominar qualquer mulher que no esteja  sua altura.
- Como meu pai. - constatou ela ,absorta.
- Deixe-me ver a sua mo direita, Louise-disse ele pegando-a e examinando-a.- Nunca mencionei isso ,mas parece que h uma fratura aqui.
Louise corou de modo estranho e afastou a mo.
- Esquea isso. Preciso entrar. Obrigada mais uma vez. Dirija com cuidado.
- Cuide-se voc tambm.
Ela ficou observando o carro afastar-se at desaparecer na noite. Tocou na mo que Drew examinara. No queria aquela lembrana de volta. Iria se deitar e tentaria esquecer.
Comeava a adormecer quando ouviu fortes batidas   porta.Parecia ser algum em desespero. Tentou levantar-se para atender, mas, surpresa, notou que mal conseguia manter-se em p. Estava zonza e fraca, o estmago dando voltas. Sentia a cabea girar ao dar o primeiro passo, e foi brigada a sentar-se na poltrona mais prxima.
No instante seguinte a porta foi aberta e  logo um homem ruivo e furioso entrou no quarto.
- Ento voc esta aqui?  indagou Coltrain. Fitou-a intrigado, ao notar-lhe a estranha aparncia. Aproximou-se e colocou a mo em sua testa.- Est ardendo em febre.Por que no ligou  pedindo ajuda ?
Louise mal conseguia enxerg-lo.
- Cheguei em casa h mais de uma hora tomei duas aspirinas e fui me deitar. H algum remdio a com voc? Meu estmago est revirado.
- Vou arranjar algo. Volto j.
Coltrain foi at o carro, grato por ela manter uma chave sob o capacho, na entrada. Detestaria Ter que arrombar a porta. Pegou na maleta de primeiros socorros e voltou para junto de Louise, que estava plida  e febril. A primeira providncia foi mediar a temperatura e examinar os pulmes. Pouco depois  , percebeu  que nada havia e errado com eles. A pulsao estava acelerada,  mas ela parecia bem.
- Um vrus-diagnosticou.
- No diga!- Louise exclamou sarcstica.
- Mas voc sobreviver.
- Trouxe o remdio?- a indagou, e estendeu a mo.
- Sim trouxe. Vou pegar gua para voc tomar.
- Pode deixar que eu me viro sozinha. S preciso de uma ajudazinha para chegar ao banheiro.
Ele a amparou e no pde deixar de perceber a fragilidade de seu corpo. Vestida, Louise no parecia to frgil, mas naquele pijama de seda a histria era outra.
Conduziu-a at o banheiro e observou-a fechar a porta. Minutos depois ela saa de l e permitia que o mdico a levasse de volta  cama. Ele a observou por um momento e ento, com determinao, pegou o telefone e discou um numero.
-Aqui  o Dr. Coltrain. Por favor, envie uma ambulncia  casa da Dra. Blakely. Anote o endereo...
Louise o fitava, os olhos arregalados.
-Ambulncia para qu?
-No vou deixar que passe a noite sozinha. Do jeito que est perdendo lquido, em trs dias estaria desidratada e morta.
- Deixe disso. Voc no se importaria nem um pouco se eu morresse. - afirmou furiosa.
- No seja teimosa!
- No quero ir para o hospital!
- Mas ir, nem que eu tenha que carreg-la.
Louise fitou-o com raiva, mas Coltrain a ignorou. Deixou-a e foi at a cozinha, para desligar as tomadas, menos as do freezer e da geladeira. Na volta, parou para observar os quadros adornando as paredes da sala de estar. Eram intrigantes, naqueles tons vivos. No precisou de muita imaginao para adivinhar quem os pintara.
A ambulncia chegou pouco depois. Ele acompanhou os paramdicos que a  carregaram.Colocou ao p da maca a maleta que Louise pedira que arrumasse, com roupas e artigos de toalete dos quais iria precisar.
- Obrigada-disse ela baixinho, as plpebras pesadas. O remdio comeava a fazer efeito, e continha um sedativo forte que a faria dormir.
- O prazer foi meu, doutora- disse ele com um sorriso- Eu no sabia que voc pintava.
- Como soube?- murmurou ela antes de apagar totalmente.
Acordou horas depois, com uma enfermeira checando seus sinais vitais.
- Ento Bela Adormecida? Como se sente?
- Um pouco melhor. Mas acho que perdi peso.
- O que precisa fazer agora  se alimentar bem.
- Eu ficaria satisfeita com um simples caf.
A enfermeira riu baixinho.
- Talvez um caf fraquinho depois da refeio. Vamos ver. - Anotou alguns dados na papeleta e se foi.
A comida era leve, porm deliciosa. Louise ainda se alimentava  quando Drew entrou no quarto.
- Como est se sentindo? Melhor?
Ela assentiu.
- Mas eu preferia estar em casa.. um exagero ser enviada para o hospital por causa de um simples vrus. Eu seria capaz de estrangular o Dr. Coltrain! 
- Voc deveria ouvi-lo. Mas, j que esta aqui,aproveite e relaxe.- disse ele com uma risadinha.- Virei examin-la assim que terminar o meu planto.
Louise gemeu e recostou-se nos travesseiros. Os pacientes deviam estar  sua espera na clnica, e a pobre Brenda na certa se encontrava em apuros, tentando acalmar os mais temperamentais.
Passava das nove horas da manh quando Coltrain foi v-la. Parecia cansado. Louise sentiu-se culpada por no estar em condies de ajud-lo.
- Sinto muito - disse quando ele se aproximou da cama.
- Por qu?- Ele segurou-lhe a mo para medir a pulsao.
- Deve estar sobrecarregado de trabalho, tendo de atender tambm os meus pacientes. - respondeu ela-O toque daquele homem comeava a perturb-la. Evitou fita-lo.
Coltrain precisou inclinar-se para examinar-lhe os olhos, a mo ainda em torno do pulso delicado. Sentiu a pulsao acelerar e inesperadamente um pensamento comeou a incomod-lo.
Largou-lhe a mo e endireitou o corpo, sem deixar de perceber o arfar exagerado de Louise. Realmente era uma estranha reao para uma mulher que parecia desprez-lo. Pegou a ficha mdica ao p da cama e leu o que havia sido anotado.
- Seu estado melhorou consideravelmente. Se continuar assim, amanha cedo poder ir para a casa. Mas no se preocupe com os pacientes. Drew vir para me ajudar.
-  muita gentileza dele.
Coltrain riu baixinho
- Eu no lhe inspiro muita simpatia, no ? Mas no posso culp-la. Reconheo que fui hostil.
 - esse seu estado normal, doutor.
- Diz isso porque no me conhece.
- Ainda bem!
Os olhos azuis estreitaram-se  fita-la. Ela sempre recuara a qualquer tentativa de aproximao, como se temesse alguma coisa. No conhecia seus motivos e tampouco a questionara. Sabia apenas que no era repulsa. Talvez fosse algo mais perturbador. Louise era uma pessoa vulnervel. Pena que ele percebeu isso muito tarde. Agora, ele partiria sem dar-lhe chance de explorar os prprios sentimentos.
Enfiou as mos nos bolsos da cala e examinou-lhe o rosto plido. Ela no usava um s pingo de maquiagem, tinha olheiras profundas e o cabelo em desalinho. No entanto, estava estranhamente bela.
-Quer parar de olhar para mim?- pediu ela-No precisa ficar me lembrando de quanto devo estar feia.
- Desculpe, no tive essa inteno.
- Voc sempre faz isso.- disse ela, e desviou os olhos para as mos, sobre o lenol.- Meu pai tambm no perdia a oportunidade de demonstrar quanto eu era sem graa.
- Oh, aquele homem...A expresso de Coltrain endureceu diante das lembranas despertadas. E, enquanto elas martelavam sua mente lembrou-se de certos comentrios a respeito do modo como o Dr. Blakely tratava a esposa. A Sra. Blakely com certeza sabia das aventuras do marido. Vai ver que no se importava..Ou tinha medo de se importar.
Mas Louise Blakely era um verdadeiro enigma. Sua atitude em relao a ele, a mo quebrada, a pouca auto-estima... . Tudo comeava a encaixar-se.
- Sua me sabia dos casos extraconjugais de seu pai?-perguntou inesperadamente.
- O qu?- Louise custou a acreditar nos prprios ouvidos.
- Voc escutou. Ela sabia?
- Claro que sim.
- E mesmo assim continuou a ser sua mulher?
Louise riu amargamente.
- No consegue imaginar por qu ?
- Talvez-Aproximou-se mais da cama. H coisas sobre voc que jamais  me ocorreram. Convivemos por quase um ano e s agora a vejo como realmente .
Louise moveu-se, inquieta.
- No se d ao trabalho, doutor. No pedi nem quero  a sua ateno.
- Nem a minha, nem a de qualquer homem, acertei?
Louise sentiu-se presa em uma armadilha.
- Quer parar com isso? No suporto interrogatrios, e nem me sinto bem.
- Acha que  o que eu estou fazendo? Interrogando-a?Eu julgava estar demonstrando meu interresse normal por minha assistente.
- Estou prestes a ser sua ex-assistente, Lembra-se? No leu minha carta de demisso?
- A carta? Li e joguei no lixo.
- Voc o qu?
- Joguei no lixo. -Ele deu de ombros. - A clnica iria  falncia sem voc.  Seus pacientes no voltariam se tivessem de se consultar comigo.
- No exagere.
- Voc tornou-se indispensvel e precisa ficar.
- Lamento mais no posso. No suporto voc-exclamou ela, sem pensar.
Coltrain estudou-a por um instante antes de assentir.
- Essa sua reao  bem mais saudvel do que ficar me evitando o tempo todo, se encolhendo como um caramujo sempre que me aproximo.
- No seja exagerado.
- No sou. Coltrain fitou-lhe a mo esquerda.- Voc tem segredos muito bem guardados, Louise e no sossegarei at que me conte todos eles. Para comear quero saber por que no permite que ningem toque sua mo. Ela mal conseguia respirar. Sentia o rosto arder.
- Se houvesse algum segredo, eu jamais lhe contaria.
- Por qu? Sabe que pode confiar em mim.
Era verdade.Como mdico, ele jamais partilharia com terceiros os segredos de seus pacientes.
Esfregava o pulso esquerdo, absorta, lembrando-se de como sua mo fora quebrada e como doera.
Coltrain a fitava, perguntando-se como pudera julg-la fria.
Louise tinha um temperamento igual ao seu, e jamais se deixava abater. Quando evitava seu toque, era o passado que ela temia, no o presente.
- Voc  cheia de mistrios. Trabalhamos juntos h um ano e nada sei sobre sua vida.
- A escolha foi sua. Sempre me tratou como se eu fosse uma pedra no caminho.
- Tem razo. Guardei mgoas antigas.
- Voc estava no seu direito. Eu desconhecia totalmente essas histrias sobre meu pai. Devia Ter desconfiado que havia alguma razo para ele nunca mais querer retornar a Jacobsville. Quanto a minha me,  jamais fez questo de voltar.-Ergueu os olhos para fita-lo.- Ela provavelmente sabia...- Corou , e desviou o olhar.
- Mas nem por isso o deixou.
- Nem poderia. Ele a teria...-Suspirou e fez um gesto desanimado.
- Ele teria o qu? Matado sua me?
- Louise no ousou fita-lo, atormentada pelas lembranas da violncia do pai, dos maus tratos, do terror que inspirava nela e na me.
Coltrain percebeu que ela sofria e pegou-lhe a mo, tentando dar-lhe algum conforto.
Louise no conseguia entender o porqu daquele sbito interesse. Fitou-o, curiosa, de repente uma onda de carinho a inundou.
Mas precisava evitar aquele tipo de emoo. Coltrain no a queria como mulher. Jamais. Era-lhe til profissionalmente, e s. Ele continuava muito ligado ao passado, ao caso da ex-noiva, a Jane Parker...Lamentava a sorte de Louise como o faria por qualquer outra pessoa que sofresse. Aquilo no tinha nada de pessoal.
Afastou lentamente a mo.
- Obrigada...- disse, numa voz estrangulada.- H pessoas que vivem presas ao passado e se esquecem de viver o presente.
- Eu era assim. Dava uma importncia exagerada ao passado, mas agora j no estou bem certo disso.
Louise no entendeu o que ele quis dizer, mas no teve chance de procurar esclarecer porque naquele instante a enfermeira no quarto e os interrompeu.




Captulo IV

Louise recebeu alta na manh seguinte e ,quando Drew se ofereceu para lev-la para casa, Coltrain interveio argumentando que a paciente estava sob sua responsabilidade. Drew no protestou, mas sorriu com certa malcia antes de deix-los.
      Uma hora depois o mdico a ajudava a entrar em casa e hesitava  porta, culpando-se por no t-la levado para almoar.
- Quer que eu v comprar alguma coisa para voc comer?-ofereceu.
- No, obrigada. Estou sem fome. Comerei algo mais tarde. murmurou ela sem fita-lo.
- Acha que ficar bem?
- Creio que sim,mas obrigada por se preocupar.
- Engraado...Faz muito tempo que no me preocupo com o conforto de uma mulher.
-	Ora, doutor, eu apenas trabalho com voc constatou Louise fazendo-o lembrar que nada mudara. O relacionamento dos dois permanecia em bases estritamente clnicas.
-	Creio que a partir de agora no podemos continuar mantendo apenas uma relao profissional .Nunca ao convidei para ir  minha casa,mas darei um jeito nisso.
Aquela conversa comeava a perturb-la.
- Tambm no o convidei para vir  minha. -Ela sorriu com ar travesso-Talvez por no querer coloc-lo numa situao embaraosa.
- Embaraosa por qu?
- Voc teria que inventar uma boa desculpa para recusar o convite.
Jeb Coltrain fitou Louise em silncio por um segundo, e pareceu refletir sobre  o que acabara  de ouvir. Em seguida sorriu.
- Talvez eu no recusasse.
O corao dela disparou, e logo a emoo transparecia nos olhos cor de mel. Queria que o mdico fosse embora porque temia expor os prprios sentimentos.
- Bem ,acho melhor ir me deitar.Estou cansada.
Coltrain percebeu-lhe a tentativa de manter-se longe dele, gentilmente, sem ofensas. Imaginou quantas vezes ela teria feito exatamente a mesma  coisa com outros homens.
Aproximou-se mais e notou-lhe a tenso , o ofegar revelador, os lbios entreabertos. Sua presena a perturbava, mas ela corajosamente tentava disfarar. Tocou-o profundamente saber quanto aquela mulher era vulnervel a ele. Condenou-se pela maneira  como a tratara at ali.
Fitou com prazer o rosto deliciosamente corado e resolveu parar quando havia  apenas um palmo de distncia entre os dois. Colocou as mos nos bolsos, para que ela no ficasse ainda mais nervosa.
- Se no  estiver bem, nem pense em trabalhar amanh. Eu me arrumo.
 - Est certo.
- Louise?
- Sim?
- No se sinta responsvel pelas atitudes de seu pai. E me perdoe por ter-lhe dificultado a vida. Uma  ltima coisa: espero sinceramente que reconsidere sua demisso e continue como minha assistente.
Louise sentiu-se pouco  vontade.
- Lamento, mas no penso em reconsiderar. Estou certa de que voc ser mais feliz com outra pessoa.
-	No concordo.
Coltrain correu as pontas dos dedos pelo rosto delicado e parou no canto da boca. Era o primeiro contato ntimo de ambos, e ele a sentiu tremer. Aquela reao provocou-lhe um efeito explosivo. Olhou para a boca sensual e concluiu que morreria se no conseguisse beij-la. Mas ainda era cedo para tentar. Tinha de ir embora antes que pusesse tudo a perder.
Afastou a mo, como se o rosto dela o queimasse.
- Foi muita gentileza ter me acompanhado at aqui. Agradeo de corao.
Coltrain parou  porta e a fitou, os olhos atentos ao corpo esquio, ao cabelo macio e aos olhos sedutores.
- Agradea  sua boa estrela, por eu estar indo embora...a tempo.
Fechou a porta diante da expresso surpresa de Louise. , ultimamente andava muito estranho...Seria arrependimento? Afinal, durante aquele ano, no a incentivara  nem um pouco. Profissionalmente falando, claro.
Porm  aquilo no importava mais. Ela precisava acostumar-se  idia de que em breve partiria para bem longe. Coltrain nada podia lhe oferecer. Na verdade, tinha todos os motivos do mundo para odi-la.
Entrou na cozinha e tirou uma embalagem com comida congelada do freezer. Precisava se fortalecer antes de retornar ao trabalho.
Fez uma careta quando a embalagem metlica escorregou de sua mo. Seu sonho de tornar-se uma grande cirurgi fora  destrudo por causa de uma atitude violenta. Uma pena, dissera seu professor, pois ela possua uma rara habilidade com as mos, algo que poucos cirurgies tm. Provavelmente seria famosa, mas infelizmente, o tendo afetado acabara com seus sonhos.
Nem mesmo os esforos do melhor ortopedista conseguira reparar o dano causado. E seu pai nem se quer se desculpara. Ela balanou a cabea, para espantar as lembranas amargas. Havia coisas na vida que era melhor esquecer, concluiu, ao levar a embalagem para o microondas.


Retornou ao trabalho ainda um pouco fraca, porm animada.
Atendeu os pacientes e riu dos queixumes de um garotinho cujos pontos cirrgicos acabara de retirar.
- O Dr. Coltrain  no gosta mesmo de crianas- disse ele.- Mostrei meu machucado e ele nem ligou. Falou que j vira  piores.
- E deve ter visto. Mas voc foi muito corajoso, Patrick. Tanto que merece um prmio- Louise deu lhe um chocolate.- V para casa agora e procure no se meter de novo em encrencas.
- Sim senhora.
Assim que ele saiu, Coltrain entrou na sala.
- Garoto terrvel, aquele- comentou.
- E est muito decepcionado com voc. Tambm pudera, nem se comoveu com o machucado dele....
- Foram apenas dois pontinhos ! Meu Deus que escndalo ele aprontou !
- Mas voc sabe como di.
- To pequeno e to atrevido. Sabe o que me disse? Que no permitiria que eu tirasse os pontos, que s voc sabe como fazer isso.
Louise riu.
- Fale a verdade: voc no gosta de crianas, no ?
Coltrain deu de ombros. Recostou-se  soleira  da porta, as mos nos bolsos da cala enquanto a observava.
- Nunca tive muito contato com elas. E, desde que voc chegou , lido mais com  os adultos.
Ao sentir aquele olhar ardente, Louise voltou-se e seu corao disparou. Entreolharam-se por um momento. Coltrain pousou  o olhar  na boca sensual, notando o contorno perfeito., os lbios entreabertos. Tentou adivinhar como seria beij-la.
Nesse momento Brenda entrou na sala, surpreendendo-os.
- Louise, eu....Oh,  desculpe, Dr. Coltrain. A enfermeira , que no o notara, acidentalmente esbarrou nele.
- Entre, Brenda.- convidou o mdico.  Vim ver se a ficha de Henry Brandy estava com a  Dra. Louise.No a encontrou onde a deixei.
Brenda sorriu, hesitante.
- Est comigo,doutor. Peguei por engano.
- No h problema.
Olhou para Louise e saiu da sala.
- Espero que no tenham recomeado a brigar. Seria uma pena.- disse Brenda antes de deix-la.
Louise nada respondeu, muito intrigada. Ele jamais a fitara de modo to intenso, e to abertamente, como acabara de fazer. Lembrou-se de que ultimamente imaginara ter visto sinais de uma certa atrao , de um afeto especial nos menores gestos dele, sinais que, tinha certeza, podiam ser meros frutos de sua fantasia.
No, refletiu, agora no era  hora de recomear com aquele tipo de tolice. Depois de decidir fazer mudanas radicais na vida, no podia se dar ao luxo de voltar a questionar e analisar cada gesto ou palavra dele, esperando por  uma declarao que jamais seria feita. Tinha que pensar no futuro e esquecer aquele amor no correspondido. No seria fcil, mas precisaria tentar.

A festa natalina do hospital aconteceria na sexta-feira, duas semanas antes do Natal, quando os funcionrios estariam livres de compromissos familiares.
Louise resolvera no comparecer. Por isso, preparava-se para voltar para casa. Guardava o estetoscpio quando Coltrain foi procur-la.
- Pretende ir   festa  esta noite? 
- No, no irei.
- Deixe de bobagem. Passarei para apanh-la em uma hora  disse ele, recusando-se a ouvir seus protestos. E no diga que ainda no se restabeleceu totalmente. Prometo que no a prenderei at  tarde.
- E quanto a Nickie?  Ela no se zangar vendo-o comigo?- perguntou ela irritada. 
O comentrio o surpreendeu.
- E porque ela se zangaria?
- Vocs no esto juntos?
- De onde tirou esta idia maluca?  S porque a levei ao jantar no significa que estejamos juntos.
- No precisa dar uma resposta to malcriada. Afinal, minha pergunta no foi absurda.
Os olhos de Coltrain pousaram na boca sensual e l ficaram.
- Na verdade eu gostaria de dar-lhe outra coisa.
Louise ficou to atordoada com a confirmao que no conseguiu  pensar numa resposta adequada. 
- No quero ir  festa , muito menos com voc. No acha que j me perturbou bastante  durante o ano ?
Pensa que pode apagar tudo com um convite? E olhe que nem  um convite!  uma ordem! 
- Oua, fazemos parte de uma equipe e nada provocaria mais comentrios do que um de ns deixar de comparecer  festa. No quero tornar a ver meu nome envolvido em comentrios maldosos. J tive a minha cota disso no passado, e graas ao pilantra do seu pai!
Louise voltou-se e pegou o casaco, furiosa.
- Se a memria no me falha, voc mesmo me aconselhou a no me culpar pelo que ele fez.
- Isso mesmo !- exclamou ele, raivoso.- Mas voc agora est sendo cega e tola.
-  Obrigada. Vindos de voc ,  esses, adjetivos so elogiosos.
Coltrain, embora furioso, percebeu-lhe o tremor. Lembrou-se de que ela estivera doente e acalmou-se.
- Um ex-colega da faculdade comparecer  festa. Seu nome  Bem  Maddox e atualmente clinica no Canad.  um excelente mdico e acabou de instalar um sistema de computao ,em  cadeia com redes mdicas em todo o mundo. Claro que ainda no podemos nos dar ao luxo de instalar algo to sofisticado na clnica,  mas no custar nada ouvi-lo. Eu gostaria de saber sua opinio ,j que  entendida no assunto.
- Fico muito honrada, pois nunca pediu minha opinio sobre nada.
- No precisa ficar me lembrando disso a todo o instante. Julguei que estivssemos em trgua. -ele sorriu- Bem  ,voltando a Maddox, eu jamais dei importncia a essa revoluo eletrnica na medicina,  mas, pensando bem, talvez seja interessante. Quem  sabe voc pode me convencer.
- Est bem, irei, mas prefiro encontr-lo na festa.
- Por que no quer ir comigo? De quem tem medo ?
Louise no podia admitir que ele a assustava.
- De nada.  que tambm prefiro evitar comentrios a nosso respeito. 
- Faa como quiser.
Coltrain saiu da sala sentindo-se terrivelmente desapontado, embora no pudesse entender por qu.

Bem  Maddox era alto, loiro , casado, e pai de trs crianas. Levava a fotos da famlia  na carteira porque gostava de mostr-las aos colegas. Tinha informaes interessantes sobre o novo sistema de computao. Era dispendioso, mas permitia aos usurios acesso imediato a todas as informaes referentes ao campo cientfico. Tratava-se de uma ferramenta de diagnsticos fantstica, um meio rpido e infalvel de obter uma Segunda opinio de autoridades no assunto. No entanto, o preo tambm era fantstico.
Louise usava um vestido confeccionado em tecido preto finssimo, com mangas compridas justas e cintura marcada. O decote, no muito profundo, exibia-lhe ingenuamente o colo adorvel. E, como complemento do traje, usava um delicado colar de prolas adornando o pescoo. Prendera o cabelo num  coque levemente despenteado, que lhe dava um ar bastante sensual.
Ela agora conversava animadamente com Bem Maddox, e, observando-a  movimentar-se, Coltrain foi assaltado por antigas e indesejveis recordaes. Na festa  do Natal anterior, ele usava um vestido mais provocante. Tentara beij-la e fora rejeitado. A atitude despertara-lhe um enorme rancor. Nunca mais tentara se aproximar dela.
- Voc tem uma assistente excepcional, Copper-Comentou Bem  Maddox ao v-lo aproximar-se. Sabe tudo sobre computadores.
- Louise  uma adepta da tecnologia. Quanto a mim. Prefiro o jeito antigo. Ela usa o computador at para diagnosticar as doenas dos seus pacientes.
 - Muito inteligente. Afinal, os computadores so o nosso futuro.- constatou  Bem Maddox.
- E so tambm os causadores  da alta nos honorrios mdicos. O dinheiro gasto com essas mquinas so sempre repassados aos pacientes, alm dos custos hospitalares, das taxas das seguradoras...
- Eu ainda no conhecia esse seu lado pessimista- comentou Bem
- Estou sendo apenas realista.- defendeu-se Coltrain.
Ergueu o copo num brinde e sorveu o restante de usque.Bem olhou intrigado e ex-colega  de faculdade dirigir-se ao bar.
- Esquisito- comentou- No me lembro de t-lo visto tomar mais do que uma dose de usque.
Louise acreditou e espantou-se quando o viu pedir mais uma. Depois, enquanto Bem explicava como funcionava o sistema de computao, no perdeu Coltrain  de vista. No deixou de perceber quando Nickie foi ao encontro dele. A enfermeira usava um provocante vestido azul. J era muito bonita, mas aquele vestido revelava todos os seus belos atributos femininos.
Viu-a rir sedutoramente e enlaar Coltrain pelo pescoo, para a alegria de todos os que os observavam. Ele pareceu achar graa e abraou-a pela cintura estreita. Em seguida abaixou a cabea para beij-la de uma forma que excitou Louise. Nunca estivera naqueles braos, porm j sonhara com isso. Evitou olhar na direo onde o casal se encontrava.
- Coltrain  um especialista na  conquista de mulheres bonitas- Bem comentou- Nunca o vi to desinibido.
Louise apenas assentiu e procurou mudar de assunto.
- Acha que esse sistema  mesmo seguro, Dr. Maddox?
- Totalmente, a no ser durante tempestades. A  melhor desligar o computador, mesmo usando estabilizador.
- Vou me lembrar disso.
- O sistema que uso em meu consultrio  muito caro, mas existem outros modelos, mais apropriados s suas necessidades. Na verdade....
Bem prosseguia dando explicaes e Louise fazia fora  para ouvi-la , atenta a  Coltrain, que agora danava com Nickie. Pouco depois, enquanto tomava seu segundo drinque, teve incio a tradicional brincadeira do beijo de Natal. Todos beijavam todos.
Como j estava na festa  h duas horas, ela achou melhor sair antes de se sentir totalmente arrasada. Afinal, fora ignorada o tempo todo por Coltrain. Abandonou o drinque  pela metade e dirigiu-se a Bem:
- Foi um prazer conhec-lo, mas preciso ir.- disse, e estendeu-lhe a mo .
Bem apertou-a.
- O prazer foi todo meu. Voc saberia me dizer o que foi feito de Drew Morris ? Eu esperava encontr-lo aqui esta noite.
- Lamento, mas no sei por que ele no apareceu.- respondeu Louise, dando-se conta de que no ouvira  falar de Drew desde que deixara o hospital.
- Perguntarei a Copper. Ele est bastante esquivo esta noite. No que eu possa culp-lo. Est  muito bem acompanhado.
Para desespero de Louise, Bem ergueu a mo para chamar a ateno do ex colega. Coltrain o viu e logo veio juntar-se a eles, trazendo Nickie pelo brao. Dirigiu-se a Louise:
- Ainda aqui? Julguei que j tivesse ido embora.
O sorriso sugestivamente abrasador que assomou quela boca bonita tornou-se to irresistvel e atraente que ela pensou em bater nele.
- Estou de sada-Louise tentava mostrar-se confiante.- Bem perguntou por Drew. Tem notcias dele?
- Drew Morris encontra-se na Flrida, participando de um seminrio de pediatria. Brenda no a avisou?
- Ela anda to ocupada que deve Ter esquecido.
- Que pena- disse Bem  Eu gostaria de v-lo.
- Eu tambm-falou Louise. A presena de Coltrain junto a Nickie a aborrecia. Bem, j vou indo.
- Mas no antes de receber pelo menos um beijo, doutora-observou Coltrain, com um brilho intenso nos olhos azuis e um sorriso zombeteiro nos lbios-Me deve um desde a festa do ano passado.
- Creio que mais uma vez vou dispensar a tradio, se no se importa.
- Dessa vez voc no escapa.
Soltou Nickie e passou o brao pela cintura de Louise antes que ela pudesse reagir. Paralisada, ela viu seus lbios serem atrados para os dele como um im. Sentiu-se puxada para  junto  do corpo msculo antes de ser beijada com impetuosidade.
Imediatamente ficou tensa e empurrou-o, na tentativa de livrar-se daquela  carcia to ousada. Por um instante, Coltrain resistiu; mas ento, respeitando- lhe a vontade, deu um gemido e afastou-se, o olhar preso ao dela  at v-la partir, deixando todos boquiabertos.

Ele a observou ir embora e percebeu que sentia coisas que jamais sentira. Queimava de desejo por ela, alm disso, sentia-se ligeiramente zonzo devido  quantidade de usque que ingerira.
Nickie puxou-o pelo brao.
- Voc nunca me beija dessa forma, seu malvado- protestou- Estou comeando a me preocupar com a doutora....
- Volto j  disse ele, afastando-a.
Nickie corou, embaraada, ao perceber que alguns funcionrios do hospital os olhavam. Ser rejeitada intimamente era uma coisa, mas em pblico era intolervel. Ela e Coltrain no se viam desde o jantar do Rotary Clube, e ele jamais lhe dera um beijo na boca. No entanto, beijara Louise com tamanha paixo...  O que estaria havendo entre aqueles dois?
Coltrain correu atrs de Louise quase por instinto. No conseguia tirar aquele beijo da mente, e tinha certeza de que com ela acontecia o mesmo. No podia deix-la partir at se certificar disso.
Louise sentia as pernas bambas ao caminhar apressadamente em direo ao estacionamento, na boca o gosto do beijo abrasador. Ao ouvir passos, de imediato adivinhou de quem se tratava. De nada adiantou andar mais depressa, porque ambos alcanaram o carro ao mesmo tempo.
Coltrain agiu rpido. Tirou-lhe a chave da mo e a porta foi aberta com mpeto. Agarrou-lhe o pulso com vigor.
- Entre !- Era uma ordem, no um convite.- S quero conversar com voc.
- Mas eu no quero conversar com voc! Volte para sua Nickie !
Ele a ignorou e, ainda segurando-a pelo brao, entrou no carro e puxou-a para dentro num movimento gil.. As pernas de  Louise foram parar entre as dele, e ela sentiu a fora do peito musculosos contra os seios. As bocas estavam to perto que era possvel sentir a respirao morna e entrecortada da mdico.
Com mos trmulos ,tentou afast-lo, mas sentiu os msculos debaixo da camisa de seda enrijecerem. Uma onda de sensaes a invadiu.
- Por que est lutando comigo?- Coltrain sorriu ironicamente, puxando-a para bem perto e abraando-a.
Louise sentia novamente a respirao morna acariciando-lhe os lbios.- Estou tentando apenas ajudar voc.-Levantou-a facilmente, segurando-a no colo por um instante antes de deposit-la  no banco, a seu lado, sem cerimnia.
- O que voc pensa que est fazendo?- Louise gaguejou, zangada, tentando se endireitar no assento com toda a dignidade que as circunstncias permitiam.
-O que voc acha ?- ele devolveu, provocante , baixando o olhar para as belas pernas.
Aquilo a  deixou em pnico, e Louise rapidamente ajeitou o vestido sobre os joelhos. Sua mente transformara-se num redemoinho de emoes. A verdade era que Coltrain tinha plena conscincia da atrao que exercia sobre ela, o que a deixava ainda mais confusa e irritada.
O sorriso auto confiante a enfurecia.
- No acho nada!
- Eu lhe disse, quero conversar s um pouquinho com voc. Volte para sua Nickie-Louise retrucou, ainda tentando. Sair do carro.Encarou-o, furiosa por sabe-lo to dono da situao.-Por que tudo isso, afinal? O que quer de mim ?
Coltrain parecia se divertir muito.
- O que acha que posso querer?
- No fao a menor idia. S  sei que est me retendo aqui contra a minha vontade. Quero que saia j deste carro!
- O que quero de voc....- Coltrain repetiu a frase mentalmente vrias vezes, analisando deliciado, as diversas possibilidades.Esticou as longas pernas para a frente, os msculos fortes das coxas salientadas pelo tecido macio da cala. Um sorriso brincou em seus lbios antes de encar-la novamente.
- Deixa ver.... O que tem a oferecer?
Louise ficou eletrizada. Um estranho tremor percorreu-lhe o corpo.
- Voc sempre faz isso?- Responde uma pergunta com outra?  falta de assunto !
- Estou fazendo isso?  Ele balanou a cabea e riu.
- sta!
Louise no sabia se o mdico caoava dela  ou de si mesmo. Estava ficando cansada daquilo.
- Vim dizer  que o  beijo que trocamos l dentro no foi suficiente- ele murmurou com voz rouca enquanto se aproximava. Tornou a beij-la nos lbios com desejo e paixo.
- Por favor, solte-me. Estamos no estacionamento.
- Esquea- pediu ele enquanto abria-lhe suavemente os lbios e a beijava com ardor louco.
Louise sentiu que uma corrente eltrica atravessava seu corpo quando o trax musculoso de Coltrain roou de novo seus seios. Tudo em volta desapareceu. S havia os dois e o desejo incontrolvel que os envolvia.
Os beijos dele, as carcias, eram  to inebriantes como o vinho. Ela ento  sentiu-se transportada s alturas, e automaticamente comeou a corresponder com paixo, deixando de lado o bom senso e as dvidas que pudessem  atormenta-la. Naquele momento , tudo o que importava era estar nos braos de Coltrain ,saborear a delcia de seu toque. Mos experientes acariciavam as curvas de seu corpo, levando-a  loucura.
Mas de repente, no meio daquilo tudo, deu-se conta de que Coltrain abusara da bebida e provavelmente nem sabia o que estava  fazendo , ou com quem. Ser que a confundira com Nickie? Perguntou-se atnita. Seria por isso que demonstrava tanto ardor? Provavelmente. Somente amantes poderiam ser assim impetuosos.




Captulo V


- Pare! No quero isso!
Ele pareceu no ouvir e beijo-a ainda mais ardentemente.
- Uma ova que no quer!- ralhou, rspido, mas logo o tom ficou suave como um sussurro: E vai querer ainda mais, beleza. Vai morrer antes que eu fique satisfeito. Vai gritar quando realmente sentir
- No!
O temor contido naquela voz o fez acalmar-se. Parou com os beijos mas continuou a abra-la, ofegante, o corao batendo forte contra os seios macios.
-	Que loucura!- Coltrain pareceu acordar para a realidade. Ergueu a cabea, estudando os olhos cor de mel de Louise. Com o polegar, acariciou-lhe gentilmente o rosto. Passou a mo pelo cabelo. Creio que abusei da bebida. Como no costumo beber, duas doses de usque me derrubam.
Louise tentou recuperar o flego. Tinha os lbios doloridos e as pernas trmulas. Ficou alguns segundos estudando a expresso de Coltrain. Sem dvida, ele bebera um bocado. Ser que conseguiria dirigir de volta para casa  naquele estado? No seria aconselhvel deix-lo sozinho naquelas condies.
- Voc no deve dirigir esta noite- disse, hesitante.
Viu-o sorrir cinicamente na escurido do carro.
- Preocupada comigo?
- Claro. Eu me preocuparia com qualquer pessoa que tivesse bebido e pretendesse dirigir um carro.
- Nickie pode dirigir. Ela no bebe.
Nickie o levaria para casa e provavelmente o colocaria na cama. E sabia-se l o que mais aconteceria. Bem, nisso Louise no tinha o direito de interferir. Coltrain a beijara por estar bbado; ele permitira e agora estava embaraada.
- Preciso ir. - disse constrangida.
- Tem certeza de que no quer ficar?
- Tenho. Estou cansada.
- Sendo assim, v, mas dirija com cuidado. -aconselhou ele, procurando pela maaneta da porta.
Saiu do carro e se ps a observ-la, as mos dentro dos bolsos da cala. Louise acionou o motor, porm hesitou antes de sair, preocupada com ele. Mas, naquele instante, Nickie chamou-o da porta. Viu-o voltar-se e acenar-lhe alegremente.
Aquilo foi o bastante. Pisou no acelerador e afastou-se o mais rpido possvel. Antes de alcanar a rua, olhou pelo espelho retrovisor. Viu Nickie pega-lo pela mo e lev-lo de volta  festa.
Seria bom demais para ser verdade, pensou amargurada. Coltrain provavelmente acabara de se dar conta de quem beijara e devia Ter ficado chocado.

Louise quase acertara. A cabea de mdico girava, mas no por causa da bebida. Ele jamais imaginara que um beijo pudesse ser to explosivo ou inesquecvel. Havia algo em Louise Blakely que o tirava do srio. No sabia por que reagira de modo to estranho quando a vira ir embora. S Deus sabe o que teria acontecido se ela no o tivesse repelido
- Voc est com o rosto manchado de batom - queixou-se Nickie
Coltrain parou, tentando recompor-se, e sorriu.
- Limpe para mim-pediu.
Nickie era bonita e nem um pouquinho complicada, pensou. E o mais importante era que sabia que no devia esperar nada dele. A concluso o fez relaxar.
A enfermeira tirou um leno do bolso e limpou-lhe a mancha do rosto. Sorriu provocante.
- No quer provar o meu batom?
- No esta noite - Coltrain tocou-lhe de leve a ponta do nariz. Est ficando tarde,  melhor ir embora.
- Est bem mais eu dirijo.
- Como quiser.
Nickie sentiu-se melhor. Ao menos seria ela quem iria para casa com o mdico. No esta disposta  entreg-lo de mo beijada  a Louise, em especial porque Coltrain fora a melhor coisa que j lhe acontecera na vida. Cirurgies famosos, bonitos e solteiros no surgiam todos os dias na vida de uma simplria como ela.

Louise voltou para casa confusa e dominada pelo ardor dos beijos de Coltrain. No conseguia entender o que levava um homem como ele a fazer  tanta questo de beij-la. E de repente!
Mas fosse o que fosse que o tivesse impelido a segui-la at o carro, era preciso admitir que fora a noite mais doce de sua vida.. No entanto sabia que, se ele no tivesse exagerado na bebida, nada teria acontecido. Talvez, na segunda-feira, o mdico j tivesse se convencido disso.
Louise percebeu que estava mais apaixonada do que nunca, e mais sozinha do que nunca. E provavelmente
Agora se distanciaria ainda mais; perdera a cabea e no iria querer lembra-se a todo o instante da prpria fraqueza.

No fim de semana, ela trabalhou em dobro porque o Dr.Coltrain deixara uma mensagem na secretria eletrnica da clnica avisando que estaria fora, e que a Dra. Blakely, atenderia  a todos os casos de emergncia.
Ele deveria te-la consultado antes, pensou, com raiva, ou informando que estaria ausente. Mas talvez estivesse contrariado. Talvez preferisse esquecer o episdio do estacionamento.
Foi visitar seus pacientes e os dele, sem deixar de notar os olhares que recebia ao passar pelos corredores do hospital.
Provavelmente quem os vira aos beijos devia julgar que estavam tendo um caso.
No domingo  noite encontrou-se com Drew no hospital.
- Como vo as coisas?- indagou ele com um sorriso travesso. - Eu soube que perdi um beijo cinematogrfico na festa de Natal.
Louise sentiu o rosto arder.
- Que exagero. De acordo com a tradio, costumam-se trocar beijos no Natal.
- De acordo com o que ouvi, o beijo de vocs nada teve a ver com tradio e muito menos com Natal. Me disseram que foi to explosivo que, no satisfeito, Coltrain a seguiu at o carro e quase fez amor com voc l mesmo- zombou Drew.
- Quem lhe disse isso?
- Tente adivinhar.
- Nickie?
- E quem mais poderia ser?- disse ele, confirmando o pior de seus pesadelos-Parece que ela presenciou a cena toda, e, como est louca por Coltrain, julgou que, se espalhasse a fofoca, ele se aborreceria e se afastaria de voc.
- Ele ser colocado a par da situao assim que pisar no hospital-Observou ela, desanimada-O que posso fazer?
- Creio que nada, infelizmente. Minha amiga, voc esta de mos atadas.
Os olhos de Louise se estreitaram  fita-lo.
- Isso  o que voc pensa - respondeu. Depois girou nos calcanhares e o deixou.
Encontrou Nickie fazendo curativo numa das pacientes recm operadas.Ficou no corredor,  espera que terminasse. Pouco depois a enfermeira aproximou-se, com a apreenso estampada nos olhos verdes.
- Quer falar comigo, doutora?
- Sim, quero. Louise no sorriu-Eu soube que voc andou fazendo certos comentrios envolvendo a mim e ao Dr. Coltrain, e vim lhe dar um aviso. Pare com isso, se tem amor a seu emprego.
O rosto de Nickie ficou vermelho como um pimento.
- Eu estava brincando!
Louise a fitou sem a menor emoo.
- S que eu no gostei da brincadeira, e estou certa de que o Dr Coltrain tambm no vai gostar e saber o que andam dizendo sobre ele.
- Desculpe, doutora. Fiquei com cime. Nickie choramingou. Sou louca por ele.
- No to louca. Caso contrrio no o colocaria numa situao to embaraosa.
- Fiquei fora de mim quando o vi beij-la. Ele no me deu se quer um beijo de boa noite e a voc beijou daquela maneira. E isso porque todos sabem que a detesta!
- Tente se lembrar de quanto ele bebeu - disse Louise, calma.-S um tolo daria importncia a um beijo dados nessas condies.
- Tem razo ...-Falou Nickie, no muito convencida - Lamento muito , e, por favor no conte nada a ele.
- Dessa vez prometo no dizer, mas tem que jurar que isso no tornar a acontecer.
- Obrigada, doutora. Prometo que no direi mais uma s palavra!
- Nickie sorriu de modo brilhante e se afastou pelo corredor, jovial e otimista. Observando-a Louise sentiu-se uma centenria.

Na manh seguinte, segunda-feira, ela entrou na sua sala, na clnica, e deparou com Coltrain, que a fitava com glaciais olhos azuis.
- O que foi agora?- indagou, antes que ele pudesse dizer alguma coisa. Largou a bolsa sobre a mesa, pronta para a batalha.
- Ento no sabe?
Louise cruzou os braos diante do peito e fitou-o,recostada  mesa.
- Est se referindo aos comentrios que fervilham no hospital ?
- Foi voc ?
- Claro!  reagiu ,furiosa- Mal pude esperar para poder contar a todos que voc me seguiu at o carro, me forou a entrar nele e ainda me atacou!
Brenda , que surgira  porta,viu-se alvo de dois pares de olhos furiosos, girou nos calcanhares e afastou-se depressa.
- Ser que voc poderia falar mais baixo?
- Assim que voc parar  de me fazer essas acusaes ridculas!
Coltrain a fitou friamente e ela sustentou o olhar.
- Eu estava bbado!
- Isso! Anuncie  aos quatro cantos do mundo! Os pacientes na sala de espera devem estar se deliciando!
O mdico fechou a porta e em seguida recostou-se nela.
- Quem foi o fofoqueiro?
- Como posso saber? Detesto fofocas.
- Nem mesmo quando elas me colocam contra a parede e me foram a tomar uma atitude? Todos agora julgam  que temos um caso.
- Devem  ter enlouquecido. Prefiro morrer a Ter algo com voc.
Coltrain no respondeu de imediato. Moveu-se na direo dela. Neste instante uma campainha tocou, na mesa e Louise pressionou um boto.
- Sim, Brenda?
- E quanto aos pacientes? Vo atender ou no?
- Pode mandar entrar o primeiro. O Dr. Coltrain est de sada.
- Terminaremos nossa conversa aps o expediente.- garantiu ele.
- Aps o expediente?- repetiu Louise, cheia de suspeitas.
- Sim, sossegue,o que houve no sbado no se repetir.No estarei bbado. disse o mdico, e a deixou.

Louise jamais saberia dizer como conseguiu atender os pacientes sem revelar seu estado de esprito. Estava furiosa com  Coltrain e igualmente furiosa com Brenda, por Ter chegado  sala sem Ter sido anunciada e consequentemente ouvido a resposta que dera a ele.
Com certeza agora todos no hospital, comeariam a imaginar que havia algo entre os dois quando, na verdade, nada existiu.
Louise examinou o Sr. Bailey e, em seguida  deu-lhe alta. H um ms ele contrara pneumonia, mas reagira ao tratamento de maneira surpreendente.
Quando se aprontara para deix-lo, o sr. Bailey a chamou:
- Dra. Blakely? Existe alguma verdade nos boatos que ouvi sobre a Sra. E o Dr. Coltrain? Alguma chance de casamento?
Pouco depois, ele perguntava a Brenda  se ela sabia porque a Dra. Blakely dera aquele grito. A enfermeira respondera que no sabia, mas que a Dra.  Talvez tivesse visto uma assombrao.
No final do expediente, depois que os funcionrios foram para casa, Coltrain a esperou no saguo. Chegara cedo, para o caso de Louise tentar escapar. Usava um terno azul marinho de talhe perfeito. Recostava-se  porta  de entrada quando ela o avistou.
- Voc fica bem com essa cor. Elogiou ele, referindo-se ao conjunto de linho lils que ela usava.
- No precisa  me bajular. Diga logo o que deseja, porque pretendo ir logo para casa.
- Como quiser.  Os olhos fixaram-se em sua boca.- Quem foi que comeou a  espalhar as fofocas a nosso respeito?
- Lamento, mas prometi que no contaria.
- Nickie?- indagou ele, e balanou a cabea ao ver-lhe a expresso.
- No a culpe. Ela  jovem e est apaixonada.
- Nem tanto.- disse ele, com sarcasmo.
- Esquea. Esses boatos no passam de fogo de palha. Logo iro achar algo mais interessante para comentar.
- Tem razo. Nada de to picante acontecia desde o casamento de Ted Regan com Coreen Tartelon.
-	No h como comparar os dois casos, considerando-se o fato de que todos sabem o que sentimos em relao um ao outro.
-	O que acha que sentimos em relao ao outro, Louise?
-	Acho que somos....antagnicos.
-	Somos?- ele a fitou em silncio- Venha aqui.
Louise prendeu  o flego. Queria ir, sim, mas para passar por ele e ir embora. Mas os olhos azuis alertaram-na 
A no se atrevera fazer isso. Eram como chamas ardendo no rosto bronzeado, prometendo prazeres inimaginveis.
Coltrain ergueu a mo.
-	Venha. No vou machuc-la.
-	Lembre-se de que agora est sbrio.
-	Exatamente. Vamos ver como as coisas acontecem, agora que sei o que estou fazendo.
O corao de Louise parou e disparou. Ela hesitou enquanto ele ria, divertido, e lentamente se aproximava, demonstrando claramente suas intenes.
-	 melhor ficar onde est!
 Coltrain ignorou-a . Pegou-lhe a mo e puxou-a para junto de si, aprisionando-a  entre os braos poderosos.
-	No, no - corrigiu, os olhos presos na boca feminina.- Alm disso, preciso saber.
Cedendo a um impulso incontrolvel, beijou-a nos lbios com sofreguido, aspirando o perfume do corpo que o enlouquecia.
Louise jamais descobriu o que ele precisava saber, porque no instante em que foi beijada viu-se arrebatada por um desejo to forte que nada se igualava. Tentou falar, protestar, mas aquela boca vida no permitiu.
Com facilidade, ele a ergueu do cho, para que os corpos se ajustassem perfeitamente, dos seios s coxas bem torneadas. Louise tentou desvencilhar-se , assustada, com o erotismo do gesto e com sua prpria reao .
Seu protesto fez com que Coltrain comeasse a suspeitar de algo. Lembrou-se de que ela tivera a mesma reao na festa de Natal.
- No posso acreditar....Voc no pode ser virgem!- exclamou, e a frase soou mais como uma acusao do que como um comentrio.
Ela desviou o olhar embaraada.
- No seja desagradvel.
- Quantos anos voc tem, Louise? Trinta?
-	Vinte e oito. E no fique to espantado. Ainda existem pessoas com certos princpios morais.
-	Eu julgava que virgens s existiam nos contos de fadas, droga!
Ela o fitou de queixo erguido.
-	Qual o problema, doutor? Estava comeando a pensar em mim como uma agradvel diverso para usufruir nos intervalos entre um paciente e outro ?
Coltrain enfiou as mos nos bolsos da cala, preocupado com uma ereo  indesejvel. Durante todo o fim de semana estivera sonhando em levar Louise para casa e seduzi-la. O desejo que sentia precisava ser satisfeito. Do contrrio, ele temia enlouquecer.
Parecia to simples...Ela tambm o desejava. E o que importavam mais algumas fofocas se as pessoas j faziam comentrios sobre eles?
Mas agora surgia um novo dado, com o qual  no contava.
Louise no era nenhuma garotinha, mas no era preciso ser um entendido no assunto para saber por que motivo fugia de todos os contatos mais ntimos.
Nessas condies, ele no se atreveria a seduzi-la. Mas como faria para se ver livre do desejo esmagador que sentia?
-	Qualquer homem com um pouco de experincia faria uma mulher reagir dessa forma- disse ela , na defensiva,o rosto vermelho.
-	Concordo ,somos ambos humanos. Mas no se preocupe. Foram apenas alguns poucos beijos.
-	No permitirei que me seduza. No sou igual as outras.
-	Sossegue ,no seduzo virgenzinhas.
-	Folgo em saber.
Louise mordeu o lbio inferior, ao fazer isso, sentiu o sabor dos beijos dele. Estremeceu.
-	Porque Louise? No quer me dizer?
Ela abaixou os olhos.
-	Porque no quero acabar como minha me.
A resposta o surpreendeu. No esperava por aquilo.
-	Sua me? No estou entendendo
Louise balanou a cabea.   
-	Nem precisa. assunto meu. Eu e voc temos um contrato de trabalho que termina no final do ano. Depois disso, nada que se refira a mim, ser do seu interesse.
Coltrain no se moveu. Ela parecia vulnervel, magoada.
-	Jamais diga que dessa gua no beber. Voc ainda poder precisar e mim.- disse ele, gentilmente.
-	Tenho certeza que no.
-	Me diga uma coisa. Como foi que voc fraturou a mo ?- indagou ele,e percebeu que Louise ficara tensa.-Um leigo no notaria,mas como cirurgio reconheo uma fratura quando a vejo. Como aconteceu?
Louise detestava falar sobre o passado, especialmente com ele,serviria apenas para confirmar aquilo que pensava sobre seu pai, embora no tivesse, motivos para defende-lo.
-	 uma fratura antiga.- disse, olhando para a prpria mo .
-	Que tipo de fratura?
-	Esquea , no sou sua paciente.
De repente, Coltrain deu-se conta de pouco que sabiam um sobre o outro. Apesar das discusses calorosas, jamais tocavam em assuntos pessoais. Longe da profisso, eram apenas cordiais um com o outro, discutindo somente assuntos ligados  medicina.
Mas agora  estava conhecendo  uma nova Louise,no to fria. Uma mulher com um passado sofrido,trancada dentro do mundo que construra para si. Ser que ela tivera algum incentivo para enfrentar a realidade ?
-	Por que no conversa sobre o assunto com Drew?- ele perguntou.
Louise hesitou e em seguida balanou a cabea.
-	No  importante, j disse.
Coltrain fitou-a intensamente antes de aproximar-se para pegar-lhe a mo e lev-la ao peito.
-	Pode confiar em mim.- disse ,solene- Tudo o que falar permanecer entre ns dois.
Louise suspirou. Jamais comentara o episdio com quem quer que fosse. Sua me sabia, mas defendia o marido, tentando desesperadamente fingir que jamais acontecera, que Louise imaginara a cena toda. Ela desculpara a infidelidade do marido, seu vcio, sua brutalidade e seu sarcasmo, tudo em nome do amor,enquanto seu casamento desmoronava e sua filha se afastava.
Amor obsessivo, dissera uma das duas amigas, to cego e obsessivo que se recusava a reconhecer a menor falha na personalidade da pessoa amada.
-	Minha me era emocionalmente dependente- confessou ela, como se pensasse alto.- Era to apaixonada por meu pai que , no importava o que fizesse....- De repente deu-se conta de que estava falando da sua vida, e o fitou, assustada.
-	Quem quebrou a sua mo ?
-	Meu pai estava bbado e bateu em mame. Louca de raiva, tentei  tirar-lhe a garrafa da mo .Ele conseguiu evitar que eu fizesse isso e ainda me atingiu. Ergui o brao para proteger o rosto e ele me acertou na mo.A garrafa quebrou-se.....- Doa falar sobre o assunto, e Louise baixou a cabea.As lgrimas toldavam-lhe a viso e ela tentou  reprimi-las. - E durante todo o tempo , mesmo enquanto eu era operada, ele disse que eu cara sobre um porta de vidro e me cortara. Todos acreditaram, at minha me. Quando contei-lhe a verdade ela me acusou de estar mentindo.
A revelao no o surpreendeu. Conhecia bem a reputao do Dr. Blakely.
-	Continue.
-	Meu pai era alcolatra, alm de viciado em drogas. Precisou parar de operar quando uma jovem paciente quase perdeu a vida em suas mos. Graas  fama que tinha como cirurgio, permitiram que se demitisse e que permanecesse no conselho  do hospital.- fitou-o e acrescentou- Ele pode Ter sido pssimo  com a familia, mas foi um excelente profissional. Eu queria ser to boa quanto ele, mas infelizmente perdi a habilidade de que precisaria para operar. Foi ento que optei pela clnica geral.
-	Sinto muito.....
-	Coltrain podia entender o que ela sentia. Era cirurgio e adorava o que fazia.
-	Mas no foi to ruim. Afinal  realizei parte do meu sonho.- Louise sorriu.  Quero que saiba que apreciei muito o tempo que passei clinicando aqui em Jacobsville.
-	Eu tambm Coltrain admitiu, relutante. Sorriu diante do espanto de Louise- Surpresa? Passou tempo suficiente aqui para saber como todos a consideram. Fui o garoto mais indisciplinado da cidade, e no fosse o incentivo que recebi de um dos meus professores, provavelmente hoje estaria na priso. Tive uma infncia difcil; era rebelde e detestava toda forma de autoridade. Constantemente arrumava encrenca com a polcia.
-	Voc? No consigo acreditar.
Coltrain assentiu.
-	As pessoas nem sempre so aquilo que aparentam ser. Mas. Apesar de tudo, eu adorava a medicina e pude contar com a ajuda de pessoas,que apostaram em mim. Sabia que sou o primeiro da famlia a escapar da pobreza?
-	Nada sei sobre sua famlia, e jamais faria perguntas to pessoais.
-	D para perceber. Voc evita partilhar seus sentimentos e no gosta que ningum  se aproxime tanto.
-	Agindo desse modo evito que me magoem .
-	Sem dvida foi mais uma lio aprendida com o seu pai.
Louise abraou a sim mesma.
-	Estou com frio . Acho melhor ir embora.
-	No quer ir para minha  casa.- Sugeriu ele. Fez uma careta ao ve-la hesitar.  Devia se envergonhar do que est pensando. Julguei te-la convencido de que no faz parte da minha lista de conquistas. Estou convidando voc para jantar comigo.Sei preparar um excelente chili mexicano. Depois do jantar , poderemos tomar caf enquanto assistimos um vdeo da ltima audio do Pavarotti. Gosta dele?
Os olhos dourados de Louise cintilaram.
-	Adoro! Mas....j pensou no que as pessoas iro dizer?
-	Que importncia tem isso? Somos ambos adultos e solteiros. O que fazemos juntos no  da conta de ningum.
-	S que a opinio geral  que somos propriedade pblica.Soube o que o Sr. Bailey me disse?
-	Sim, eu soube.- Ele riu e pegou-a pela mo . Entrelaou os dedos nos dela e conduziu-a para fora da clnica.
-	Por favor, Dr. Coltrain...
Ele trancou a porta.
-	Meus amigos costumam chamar-me de Cooper.
-	No somos amigos.
-	Julguei que fssemos, aps um ano de convivncia.- disse ele, impelindo-a em direo ao  automvel.
-	E quanto ao meu carro?
-	Deixe-o onde esta. Eu a levarei para casa depois do jantar e passarei para apanh-la pela manh. Est trancado?
-	Sim, mas....
-	No discuta e venha comigo. Foi um longo dia , e ainda teremos de ver nossos pacientes no hospital.
Era uma tortura ouvi-lo dizer  aquilo, em especial porque  ficaria apenas duas semanas em  Jacobsville. Sim , o mais sensato  a fazer era partir. No suportaria ficar perto dele e ser tratada apenas como amiga. A outra alternativa era ter um caso ,mas de que adiantaria?
Coltrain notou-lhe a preocupao .
-	Resolva logo. Prometi no seduzi-la , a menos que voc queira que acontea.- brincou ele.- Lembre-se que sou mdico e sei como evitar consequncias desagradveis.
-	No seja ridculo!- Louise soltou-se ,furiosa. A atitude o divertiu.
-	Adoro ver voc zangada. Por acaso tem sangue irlands?
-	Meu av era irlands.- confessou ela, afastando uma mecha de cabelo do rosto.
Ele riu abriu-lhe a porta do carro.
-	Logo vi.
Louise acomodou-se no assento macio enquanto ele se ajeitava atrs do volante. Sentiu-se em paz e relaxada  durante todo o trajeto at o rancho. Nada comentou, nem mesmo ao passar por outras propriedades ao longo do caminho.
- Voc esta muito calada.- comentou ele,  ao chegar.
- Estou feliz.- ela respondeu sem pensar.
-	Coltrain ajudou-a a sair. Em seguida conduziu-a aos degraus de entrada e at a varanda. Era espaosa e nela havia confortveis cadeiras de vime.
-	Deve ser agradvel sentar-se aqui nas noites de vero.- comentou ,Louise absorta.
-	Muito- Ele sorriu, fitando-a com curiosidade.- Eu dificilmente  acharia que voc 
  do tipo que gosta de sentar em varandas....
- Ou de dar passeios pelo bosque, andar a cavalo e jogar beisebol?- completou ela. Tenho amigos em Austin  que so proprietrios de fazendas. Sei montar e atirar muito bem.
Coltrain a observou. Parecia uma garota da cidade grande . Jamais a analisara de perto, claro. Tal pai, tal filha, sempre julgara. Mas Louise no  era como  Fielding Blakely. Era nica.




Captulo VI

Coltrain abriu a porta  da casa e a fez entrar na ampla sala de estar decorada em estilo espanhol. A moblia, em tons de bege, creme e marrom, combinava com as cortinas brancas.
- No pense que este sempre foi o meu modo de vida. Tambm j passei maus pedaos. Cresci sentado em caixotes de laranjas, comendo em pratos lascados- comentou ele ao v-la correr os dedos por uma bela escultura de bronze.
Louise riu.
-	Se a companhia for agradvel, no vejo problema algum  em sentar em caixotes de madeira  e usar pratos lascados. Odeio aqueles jantares formais, com pratos de porcelana  chinesa e talheres de prata.
Ao ouvir essas palavras , Coltrain comeou a se preocupar.Afinal, tinham a mesma opinio  e no achava possvel  ambos possurem  tantas coisas em comum. Fitou-a com as sobrancelhas erguidas.
- Voc  surpreendente. Tem certeza de que no andou me investigando s para dizer  exatamente o que quero ouvir? 
A surpresa de Louise foi genuna. Nunca vira tanta presuno .
-	J basta por hoje. Creio que  melhor eu ir embora.
Coltrain pegou-a  pelo brao.
-	Desculpe- Hesitou- Quando h mulheres envolvidas fico sempre na defensiva. Eu jamais soube distinguir....
-	No precisa explicar . J entendi.
-	No ,voc no entendeu. Eu no era assim. Acreditava nas pessoas mas seu pai acabou com minhas iluses. Minha ex-noiva no permitia que eu a tocasse, mas dormia com ele. O pior foi que engravidou e pretendia se casar comigo sem me contar nada.- Ele suspirou- Odiei seu pai mais do que tudo no mundo ,e quando descobri quem voc era , quase briguei com Drew por ter escondido isso de mim.
-	Eu desconhecia essa sujeira toda.
-	Sei disso. , passado o choque inicial, tive de admitir que voc me era bastante til. Jamais se queixou do excesso de trabalho, por mais que eu a pressionasse. Julguei que a fosse fazer desistir,mas,quanto mais eu exigia,mais voc  correspondia. Tanto que aps um certo tempo me convenci de que tinha feito um bom negcio. No que gostasse de voc.
-	Isso voc fazia  questo de deixar bem claro.
-	Lamento, mas no sei fingir. No entanto, intimamente eu a admirava. Muitos no teriam a sua fibra; engoliriam a raiva e esbravejariam  longe de mim. Mas voc  me enfrentava.
-	 porque estou acostumada a lidar  com pessoas  temperamentais. Meu pais era como voc.
-	S que no bebo, no sou drogado e nunca machuquei uma mulher.
-	Mas  muito rgido. Ordena, pressiona , jamais desiste.Justamente como ele. Quando meu pai  achava que tinha razo,lutava at o fim para provar isso. Era teimoso e jamais admitiu que estava com problemas. O mesmo se aplica a minha me. Era escrava dele e se afastaria  da prpria filha se esse fosse o desejo do seu amo e senhor.
-	Mas tenho certeza que ela a amava.
-	Talvez, mas seu amor por meu pai era maior. Era grande o suficiente para que mentisse por ele, que morresse at. E foi o que ela fez.- Louise voltou-se,o rosto tenso.- Entrou naquele avio sabendo que meu pai no tinha condies de pilot-lo. Talvez tivesse tido uma premonio e quisesse morrer tambm.No viveria sem ele.
-	Do jeito que voc fala, d a entender que no acredita num amor to grande assim . Acha que no existe?
-	Pode ser que exista. Mas no quero para mim nada to obsessivo. 
-	E o que deseja? Uma vida inteira de solido ?
-	No foi o que voc escolheu ?
Ele deu de ombros antes de responder;
-	Por enquanto- Seus olhos prenderam-se aos dela por um momento, e em seguida desviaram-se.- Voc sabe cozinhar?- perguntou , a caminho da cozinha.
-	Claro.
-	Como o restante da casa, a cozinha era ampla, limpa e modernamente equipada.
-	E que tal  o seu chili?
-	Bem devo confessar que comida mexicana, no  a minha especialidade.
-	Vivo recebendo elogios por causa do meu.- disse ele, orgulhoso. Tirou o palito, arregaou as mangas da camisa e lavou as mos.-Voc pode preparar o caf.- sugeriu aproximando-se do fogo .
O jantar foi servido minutos depois . Louise no se lembrava de ter apreciado tanto uma refeio .
-	Delicioso. Qual  o seu segredo ?
-	 simples: o chili deve ser levado ao fogo numa panela de ferro.
-	Vou me lembrar disso, se algum dia tentar preparar o prato.
Coltrain recostou-se , a xcara de caf na mo, enquanto a observava.
-	No foi somente da minha parte.
Louise fitou-o com olhos indagadores.
-	O qu?
-	Todo aquele antagonismo. Voc era bastante brusca , s vezes.
-	Todos revidam quando so agredidos.
-	Pode ser.  Ele consultou o relgio e terminou de tomar o caf .  Creio que  melhor ir para o hospital. Vou colocar a loua na lavadora e em  seguida sairemos.
-	Estou preocupada. O fato de chegarmos juntos ser motivo para mais comentrios maldosos.
-	Danem-se os comentrios.

Havia um grande movimento no hospital, e muitas pessoas os viram chegar. Louise fez seu trabalho  normalmente , indo de paciente a paciente, verificando  fichas e sorrindo  amigavelmente para cada  um deles.
Quando terminou de fazer a ronda , no conseguiu encontrar Coltrain. Olhou para o estacionamento atravs da janela de uma das enfermarias e viu o carro dele no mesmo lugar  onde o deixara. Resolveu verificar na sala dos mdicos.  Viu-o na companhia de uma mulher loira, atraente, que usava um vestido caro e segurava o brao dele com ambas as mos.
-	Essa  minha assistente- apresentou Coltrain- Louise, esta  Dana Lester, uma...amiga antiga.
-	A ex noiva dele  Corrigiu a mulher num tom adocicado.   um prazer conhec-la. Acabo de ser contratada pelo hospital. Sou a nova diretora da enfermaria. Creio que nos veremos bastante a partir de agora.
-	Ento voc  enfermeira.- indagou ela, gelando.
-	Enfermeira formada.- Eu morava e trabalhava em Houston, mas me divorciei recentemente e este emprego caiu do cu. Nasci em Jacobsville e estou adorando voltar.
-	Que bom para voc- disse Louise.
-	No ouvi direito  o nome da sua assistente, querido- disse ela a Coltrain.
-	 Louise. Dra. Louise Blakely.
-	Blakely?  A mulher empalideceu.
-	Sou a filha do Dr. Blakely. Deve te-lo conhecido.- observou Louise friamente.
O rosto de Dana ficou branco como folha de papel. Ela soltou o brao de Coltrain.
-	Preciso ir embora, querido. Tenho vrias coisas a providenciar antes de me instalar na cidade. Precisamos jantar juntos qualquer noite dessas. Ligue para mim.
Como era esperado, Dana no tornou a falar com Louise, que a observou sair com os olhos frios.
-	Voc no queria que ela soubesse quem sou ,no ?
-	Acertou. Acho  melhor no mexer com o passado.
-	Voc sabia que ela viria trabalhar aqui?
-	No . Sabia apenas que havia uma vaga.
-	Ela  muito bonita.
-	E  loira. No  o que est pensando ?
-	Como Jane Parker.
-	Jane Burke , agora que se casou. Como V, gosto de loiras.
-	A maioria dos homens gosta. Mas no espere que eu a receba de braos abertos. Sei quanto minha me sofreu por causa dela.
-	 uma histria antiga. Consegui superar, e creio que voc devia fazer o mesmo. O que seu pai e ela fizeram no  da minha conta.
-	Meu pai traiu minha me com essa mulher e voc diz que no  da sua conta?
Coltrain tinha uma expresso fria  e procurou mudar de assunto.
-	Voc terminou a ronda?
-	Sim ,terminei. Pode me dar uma carona at onde est meu carro? Quero ir para casa. O vdeo do Pavarotti fica para outra ocasio.
Aquilo foi como um balde de gua gelada.  Coltrain hesitou, mas apenas por um instante. A expresso dela revelava que a deciso estava tomada. Louise no voltaria  atrs.
-	Est bem. Vamos.- concordou ele, fazendo um gesto com a cabea em direo  sada.
Pouco depois parava o carro ao lado do dela.   
-	Obrigada pelo jantar.
-	De nada.
 Ele esperou at que Louise entrasse no Ford e se afastasse. Em seguida , rumou na direo contrria.

A chegada de Dana Lester, ocasionou muitos comentrios. A maioria das pessoas em Jacobsville lembrava-se do escandaloso caso dela com o Dr. Blakely.
Louise tentou prosseguir com sua rotina, como se nada tivesse acontecido, mas a situao se tornara intolervel. No pde deixar de perceber que Dana passava a maoir parte do tempo seguindo Coltrain pelos corredores do hospital e ligava vrias vezes para a clnica. Fingia no notar, mas no fundo estava muito infeliz. O mdico,agora, raramente lhe dirigia a palavra.
Se o jantar no rancho fora um bom comeo para um novo relacionament,a chegada daquela mulher estragara tudo. Coltrain passou  a colocar Louise em segundo plano, e agora discutiam somente assuntos referentes aos pacientes. Quem sofria com este distanciamento era Brenda e os funcionrios do hospital, que viviam pisando em ovos. O humor de Coltrain estava horrvel. E, cada vez que ele explodia, Louise revidava. 
-	Ouvi dizer que Nickie e Dana quase se engalfinharam  comentou Brenda- Que vexame! E isso so para ver quem entregava a ficha de um paciente para o Dr. Coltrain!
-	Pena que ningum tivesse uma cmara escondida para registrar o episdio- disse Louise ,tomando seu caf com calma.
-	Vocs pareciam estar se entendendo to bem...O que houve?
-	Aquilo foi apenas uma trgua ,Brenda. Nada mudou . Ainda pretendo partir no fim  do ano.
-	Eu soube do caso do seu pai com Dana pelas enfermeiras mais antigas do hospital. Lamento muito ,mas no vale a pena se aborrecer por causa dela.- Brenda  sorriu.- Voc sabia que vrias enfermeiras do hospital  pensaram em se demitir quando souberam que essa mulher seria a chefe?
-	Verdade?
-	Verdade. Uma delas, que trabalhou em Houston, afirmou que Dana estava para ser demitida quando encontrou trabalho aqui. Dizem que seu currculo  fantstico, mas que no  uma boa administradora e que costuma favorecer amigos. Vocs tero de aprender a lidar com ela.
-	Eu no .
-	Dizem que ela voltou  por causa do Dr. Coltrain. Est a procura de um novo marido, e ele  o primeiro da lista.
-	Sorte dele. Dana  uma bela mulher.
-	 uma sanguessuga. Vai suga-lo at a morte.
-	Coltrain sabe cuidar de si mesmo.- retrucou Louise, imperturbvel.
-	Ele corre perigo,escute bem o que eu estou dizendo. Nenhum homem resiste a um rosto bonito, nem a uma mulher que o vive adulando.
-	Ainda bem que no estarei aqui para ver.
Nickie e Dana  podiam se matar por Coltrain. E que a melhor vencesse. Quanto a Louise, no pretendia ficar para assistir ao duelo. Sabia que o mdico jamais seria seu. Portanto, devia aceitar de bom grado a derrota e retirar-se com dignidade.

Drew a convidou para jantar e Louise aceitou, grata pela perspectiva de uma noite divertida. No entanto , no restaurante que ele escolheu , o melhor de Jacobsville, deram com um casal indesejvel: Coltrain e sua ex noiva.
-	Lamento. disse Drew, embaraado.- Eu teria ido a outro lugar se soubesse que eles estariam aqui.
-	No ligue. Ns nos encontramos todos os dia no hospital, lembra-se?- Louise suspirou,desanimada.  A situao se tornou intolervel. Dana sempre some quando preciso dela e Coltrain fala comigo o estritamente necessrio. Ainda bem que estou indo embora. E, com todo o respeito, lamento a hora que vim para c.
-	Sinto t-la colocado nessa situao. No foi como eu esperava.
-	E o que voc esperava?- indagou ,curiosa.
-	Que Copper encontrasse em voc o que at hoje no encontrou em ningum. Voc  nica, e em certos aspectos ele tambm . Formariam um belo par.
Louise riu.
-	Voc se enganou. Eu e Coltrain somos como co e gato. No conseguimos ficar cinco minutos juntos sem brigar.
-	 uma lstima.- Drew  olhou em torno  e fez uma careta.- Essa no!
Louise seguiu-lhe o olhar e viu Nickie determinadssima, usando um vestido exageradamente justo e curto, arrastar um jovem interno em direo  mesa vizinha  de Coltrain.
-	Isso vai acabar em confuso.- comentou ela, ao ver os olhos do mdico brilharem ,furiosos.- Coltrain no deve estar gostando nenhum pouco da palhaada. A qualquer minuto vai levantar e sair.
E, quando ele fez exatamente aquilo, deixando Dana atnita e sozinha numa das mesas, e Nickie chocada na outra, Drew precisou sufocar uma risada.
-	Voc o conhece bem- disse.
-	Ele costuma me acusar de ler a sua mente. E me causa pena. Imagine s, ser disputado por duas mulheres, e publicamente!
Drew no comentou que na verdade eram trs as mulheres que o queriam. E que , embora disfaradamente, o mdico no tirara os olhos de Louise desde que ela entrara no restaurante.
-	Veja, Coltrain pagou a conta e est acenando para Dana. Pobre Nickie . Que humilhao desnecessria....
-	Ela foi longe demais. Talvez agora aprenda que  possvel perder um homem to depressa como se conquistou.
-	 muito jovem e logo esquecer. Mas e voc? O que pretende fazer?
-	Em relao a qu ?
-	A Copper.
-	Absolutamente nada. Pretendo iniciar uma vida nova em  Austin.
Drew levou a xcara aos lbios e sorveu um gole de caf.
-	No sei....Tenho o pressentimento de que voc jamais deixar esta cidade.

Captulo VII

No sbado  pela manha, Louise foi acordada por insistentes batidas  porta. Ainda sonolenta, vestiu o roupo e foi atender.
Deparou com Coltrain, parado junto  soleira ,de botas, jeans desbotado e uma jaqueta de couro. Na mo segurava o chapu.
- Que faz aqui to cedo, caubi madrugador ?
- Engraadinha.- disse ele sem sorrir.- Preciso falar com voc.
- Entre. Vou preparar um caf.
Bocejou a caminho da cozinha. Poderia pedir licena para ir se trocar, mas nem se incomodou  com isso.Como mdico, ele estava mais do que acostumado a ver mulheres usando roupas informais.Coltrain ficou observando Louise movimentar-se, sentado numa  das cadeiras da cozinha. O jeans colado revelava as pernas longas e firmes. Com o cabelo em desalinho, parecia mais relaxado do que nunca.
-	Aqui est seu caf.- disse ela, estendendo-lhe a xcara. Em seguida serviu-se tambm.
-	Para o caso de estar pensando algo nesse sentido, quero deixar claro que nada tive a ver com a volta de Dana  cidade- informou ele secamente.
-	E porque eu pensaria nisso? Dana no  assinto meu.
-	Sei-respondeu ele, irritado. Tomou o caf, parecendo zangado.- Tambm no  meu, mas ela e Nickie esto transformando minha vida num verdadeiro inferno.
-	Como pode dizer isso? Afinal so dias belas mulheres disputando sua ateno.  constatou ela ironicamente.
-	No tenho mais sossego. - foi a resposta, dada num tom  impaciente- Onde quer que eu v, h sempre uma delas por perto. E s vezes as duas, como voc viu naquela noite.
Louise riu.
-	Desculpe pela risada, mas o episdio no restaurante foi mesmo engraado.
-	Eu no achei.
-	Entendo a sua situao , mas veja meu caso. No encontro nenhuma delas quando preciso. Fogem de mim como se eu sofresse de alguma doena contagiosa.
-	A situao no pode continuar como est. Vou chamar a ateno das duas.
-	Faa isso. Quanto a mim, partirei em breve e por isso no dou muita importncia ao fato.
-	Como assim, partir? No tinha resolvido ficar?
-	De onde voc tirou essa idia? Entreguei- lhe minha carta de demisso. Se jogou fora, o problema  seu.
Coltrain olhou, pensativo, para a xcara.
-	No julguei que fosse srio.
-	Ah,  ? Mas que memria conveniente a sua, doutor. No consigo esquecer uma s palavra do que disse a Drew sobre mim, e voc no consegue  se lembrar do que conversamos naquele mesmo dia?
Ele passou  os dedos por entre o cabelo.
-	Aquilo foi um desabafo.  Eu no sabia que voc estava ouvindo .Naquele dia, alm do problema com o garotinho, eu havia recebido  uma carta de meu pai, pedindo dinheiro. No aguentei a presso e explodi.
-	Eu no sabia que seus pais eram vivos.
-	S o meu pai. Mora em Tucson. Aposta tudo o que tem nas corridas de cavalos, e quando perde, recorre a mim para saldar suas dvidas.
-	Sinto muito.
-	O problema  antigo.- disse ele, o olhar suavemente preso ao dela.  Por causa disso, quase me tornei  um criminoso. Meu pai me obrigava a praticar pequenos furtos, para poder apostar nos cavalos. No aqui em Jacobsville, claro, mas em Houston. Escolhia as casas mais elegantes e me mandava fazer o servio sujo, porque ,sendo menor de idade, eu no podia ser preso.
-	Mas ele poderia ter sido preso!
-	E foi. Fui adotado enquanto esteve na penitenciria. Eu tinha treze anos e queria esquecer o passado. Estudei muito, esforcei-me para ser algum. Como minha situao financeira atualmente  boa ,ele se aproveita.
Louise ficou pensativa. De certa forma, a vida de ambos fora parecida.
-	 uma pena no poder escolher os pais.  comentou ela.
-	 verdade. Sabe, no dia em que Drew ligou, eu j estava de mau humor. Quando comentou que vocs iriam sair juntos, foi a ltima gota. Me aborreceu o fato de voc gostar dele, enquanto me evitava como se eu fosse uma praga.
Que ironia.... Coltrain interpretava aquela reao como desprezo quando, na verdade, no passava de uma mscara que Louise  usava para disfarar a forte atrao que sentia.
-	Eu simplesmente correspondi   maneira  como fui tratada. Voc sempre deixou bem claro que fazia questo de manter nosso relacionamento em bases profissionais.
-	Mas no precisava me tratar daquele jeito.  protestou ele. Estranhamente no parecia mais preocupado. Na verdade, estava sorrindo.  Fiquei muito surpreso quando li sua carta de demisso.
Louise olhou para as prprias mos.
-	Julguei que fosse ficar feliz.
As palavras o deleitaram. Sabia exatamente o que Louise sentia por ele, tivera certeza quando a beijara, e no poderia deix-la ir at ter certeza dos prprios sentimentos. Mas como  impedi-la de partir?
Fitou-a intensamente quando  um plano maluco lhe ocorreu.
-	Acabo de ter uma idia que com certeza far com que Dana e Nickie me deixam em paz.
-	 mesmo? E qual seria?
-	Podemos fazer de conta que estamos noivos.
As palavras invadiram a mente de Louise como um furaco . Ela ficou parada, fitando-o, sem nada dizer. Era dezembro, o dia estava lindo e o sol brilhando l fora. Os enfeites  de Natal cintilavam por toda parte.
-	Ei, voc me ouviu?
-	 uma piada? Se for, no achei graa.
Coltrain se levantou, e antes que ela pudesse evitar, enlaou-a pela cintura. Em seguida deslizou as mos pelas suas costas,e puxou-a contra o peito. Ficou to perto que Louise pde sentir-lhe o calor.
-	Quer parar de fingir? Sei que voc me quer e esse  o verdadeiro motivo que a levou a demitir-se.
-	O qu?- Louise gelou. No ousou mover-se.
-	No precisa ter medo. Fingir que lhe sou indiferente no a levar a lugar nenhum.
-	 assim to bvio.  sussurrou ela, o orgulho no cho.
-	Tenha calma, porque tudo dar certo.-ele sorriu- Conseguiremos lidar com isso.
-	No precisa lidar com nada. Eu vou....
Ele a interrompeu com um  abrao apertado. Louise o encarou. Notou que Coltrain no sorria mais, mas viu que seus olhos revelaram  um brilho indisfarvel de desejo. Pressentiu perigo e tentou se afastar, mas ele a segurou, fazendo com que as coxas se encaixassem  e os seios fossem comprimidos contra o trax musculoso.
Comeou ento a beij-la no nariz, nas maas do rosto, nas tmporas. Beijos leves, lentos. Uma vez que ela j estava presa, no havia necessidade de pressa.
-	Coltrain....
Louise ainda tentava protestar, sentindo  a boca seca. Ele inclinou a cabea, mergulhando a lngua por entre os lbios semi abertos. Estava vido de desejo, assim como ela. Louise  enlaou-lhe o pescoo. Podia ver estrelas faiscando, mesmo de olhos fechados.
Tudo aconteceu depressa demais. No momento seguinte , deitados no cho da cozinha, eles se beijavam com ardor, as pernas sensualmente entrelaadas. Coltrain acariciava-lhe as costas possessivamente. Louise sentiu os seios inchados e doloridos de  desejo. Ele beijo-lhe o pescoo, ateando fogo s partes mais sensveis do seu corpo.
Ela nunca estivera com um homem. Jamais algum a atrara tanto a ponto de fazer com que se esquecesse do tempo e do espao. Uma pontada de irritao , e a sensao de que agia como uma tola, comearam a atorment-la. Coltrain era atraente  demais, tentador demais,  perigoso demais para a paz de  esprito de uma mulher. Por que se submetia a isso? 
-	Eu seria capaz de fazer amor com voc aqui mesmo, no cho.- disse ele, num tom rouco.- Ainda pensa em ir embora?
Sentiu-a estremecer, mas continuou apenas a roar-lhe os lbios. No ia for-la a nada, Louise precisava entender que, entre um homem e uma mulher, tudo deve ser compartilhado com amor e respeito.
Ela sentia a cabea  girar. Aquilo parecia to irreal.... Coltrain fizera tudo, menos seduzi-la, e mantinha  a mo em seu seio enquanto olhava para seu corpo, analisando atentamente cada  pedacinho. Louise sabia que deviam parar antes que fosse tarde, mas no conseguia repelir aquele homem cuja  boca era to deliciosa e sensual.
Por fim, encontrou foras para isso. Desvencilhou-se ,levantou-se e amarrou o roupo, embaraada. Por que se permitira ser tocada de modo to ntimo.
Coltrain tambm se recomps. Depois sentou-se e cruzou as pernas.
-	Voc parece ofendida.- brincou  Sabe que gosto de v-la corar.
-	Quer fazer o favor de ir embora?- pediu ela, secamente.
-	No, no vou .Tenho uma idia melhor. Vamos cavalgar.
-	No vou a lugar nenhum com voc.
-	Prefere ficar aqui e ir para cama comigo ? Nada me daria mais prazer, mas infelizmente deixei dois cavalos selados no estbulo.
Louise apertou a gola do roupo contra o pescoo.
-	Dr. Coltrain....
-	Copper- ele lembrou. Tinha os olhos ardentes e possessivos.- Ou Jeb, se preferir. Mas v se vestir. Ainda estou excitado e isso pode ser perigoso.
-	Lamento, mas no posso ir. Tenho coisas a providenciar.
-	Escolha: cavalgar ou.....- provocou  ele, indo em sua direo .
Louise fuzilou-o com o olhar  antes de voltar-se e deix-lo.
Vestiu uma cala velha jeans, camiseta e botas ,com a mente a mil. No conseguia acreditar no que acabara de acontecer. E aquela conversa sobre fingir que estavam comprometidos? Ela devia ter enlouquecido! Sim, era isso. Estava to tensa que comeava a imaginar  coisas. O episdio no passara de alucinao!
Retornou  cozinha constrangida como nunca, e reparou que ele, muito  vontade, agia como se nada houvesse acontecido. Devia procurar fazer o mesmo.
-	Pronta para cavalgar?
Louise sorriu.
-	S espero no decepcionar. H muito tempo que no me aproximo de um cavalo.
-	No se preocupe. Tomarei conta de voc.
Abriu a porta e saram. Pouco depois dirigiam-se ao rancho.


A regio era encantadora, apesar de o inverno rigoroso ter queimado a vegetao.. O cavalgar lento era relaxante, mas a companhia a deixava tensa. Louise no conseguia ignorar a presena marcante de Coltrain, com o chapu cado sobre os olhos.
-	Est gostando ?- perguntou ele.
-	Sim, muito.
-	Fao isso frequentemente.  Minha propriedade no  muito grande, mas possuo umas cinqenta cabeas de gado e dois excelentes touros reprodutores.
-	Gosta de lidar com gado?
-	Sim. Criar gado sempre foi meu sonho, desde menino. Meu av possua um pequeno sitio e uma velha vaca leiteira.  Certa vez tentei monta-la- contou ele, rindo- Foi uma bela queda!
-	E sua av?
-	Era excelente cozinheira e fazia doces deliciosos. Quando ela e meu av descobriram que meu pai andava roubando , ficaram arrasados. Sofriam tambm por minha causa.- Coltrain balanou a cabea.- Quando uma criana faz coisas erradas, os outros sempre culpam  quem os criou. Mas meus avs eram pessoas direitas. S eram pobres ,como muitos.
Louise percebera que ele dispensava um carinho especial  aos clientes pobres. Fazia horas extras para poder atende-los gratuitamente. E durante o Natal era o primeiro a oferecer doaes s casas de caridade, principalmente s infantis.
-	Voc.... pretende ter filhos ?- indagou ela.
-	Sim. Quero uma famlia numerosa. E voc ?
Creio que no . Se tivesse filhos, iria querer ficar com eles enquanto fossem pequenos. Crianas precisam  de cuidado e no sei  se conseguiria me afastar da trazendo-o para perto.
-	Sei que no  esse o motivo. Conte a verdade: porque no quer ter filhos?- pediu suavemente.
Louise encolheu-se, como se de repente sentisse frio.
-	Talvez pelo fato de eu ter detestado ser criana.- murmurou.- Odiava meus pais e a vida que me proporcionavam. 
-	Mas nem todos os pais so iguais. Voc acha que alguma criana iria me detestar ?
Ela sorriu.
-	Por que fariam isso? A nica queixa que as crianas tm de voc  que no d pontos to bem quanto eu. 
-	Ah, ? E qual  o seu segredo?
-	O chiclete que ofereo a eles depois que termino.
-	J entendi. Voc troca alguns pontos  por algumas cries. 
-	Os chicletes no tem acar !-  protestou ela, com um sorriso travesso.
-	Ponto para voc.


Pouco depois chegavam aos estbulos, que ficavam a uma distncia razovel da casa principal. Coltrain pulou do cavalo e ajudou-a a desmontar. Amarrou os animais  cerca e conduziu-a ao interior surpreendentemente  limpo, pavimentado . As baias eram bastante espaosas. Explicou como havia modernizado as instalaes.
-	No estou to atualizado quanto os rancheiros da regio,mas investi um bom dinheiro e muito trabalho no projeto. Tenho orgulho do que consegui. Um dos meus reprodutores j foi citado numa revista especializada.
-	Meus parabns. Posso v-lo?
-	Tem certeza?
-	Claro que tenho! Por que a surpresa? Gosto muito de animais. Tanto que cheguei a pensar em fazer veterinria.
-	Por que mudou de idia?
-	Para ser franca, no sei dizer, mas no me arrependo da escolha que fiz.
Os animais pareciam sadios e bem cuidados. O touro que Coltrain mencionara era um belo animal. Enorme, marrom e aparentemente dcil, aproximou-se e permitiu que o dono acariciasse seu focinho.
-	Como vai, meu velho? Comeu todo o seu milho?- perguntou ele afetuosamente.
-	 um Santa Gertrudes, no ?-indagou Louise.
-	Como sabe?
-	Um dos meus pacientes esqueceu uma revista de criadores na clnica, e dei uma olhadela. No faz mal saber um pouco mais sobre o assunto, no acha?
Coltrain deu uma risadinha, os olhos azuis brilhando. Apoderou-se de uma mecha do cabelo  de Louise e enrolou-a nos dedos.
-	Eu no havia notado que tnhamos tanto em comum.  Engraado... trabalhamos juntos tanto tempo e somente agora comeo a conhec-la.
-	O mesmo acontece comigo.
Louise o fitou. Gostava de v-lo com o cabelo em desalinho. Adorava t-lo assim ,descontrado.Tambm adorava o modo como caminhava, e como o chapu caa sobre seus olhos . Lembrou-se da sensao reconfortante de ter aquele corpo junto ao seu  e de repente sentiu frio. Suspirou e sorriu.
O modo como a expresso de Louise mudava a cada situao o fascinava. E sem entender o que o levara a fazer isso, ele estendeu o brao em sua direo.
Ela aceitou o convite sem questionar. Fechou os olhos e apoiou o rosto no peito largo, ouvindo-lhe as batidas do corao. Um tanto surpreso, ele a apertou mais fortemente, de maneira fraternal, acariciando-lhe o cabelo.
-	O Natal  na semana que vem.- constatou.
-	O que voc pretende fazer? Pass-lo com amigos ou receb-los em casa ?
Ele riu suavemente.
-	Eu costumava passar o Natal com Jane- lembrou, e sentiu-a retesar-se.- Mas ano passado como ela estava casada, fiquei sozinho. Comprei uma ceia pronta e assisti a filmes antigos na televiso.
Louise nada disse. Sabia que Coltrain fora noivo de Jane Parker, mas jamais lhe ocorrera que pudessem ser ntimos. A idia a deprimiu. 
Ele, porm, no pensava  em Natais anteriores, e sim naquele que se aproximava. Acariciou o cabelo sedoso de Louise.
-	Onde passaremos o Natal, e quem far a comida -perguntou.
Era encorajador saber que ele desejava passar aquela data importante em sua companhia. Louise no poderia rejeit-lo sem ferir-lhe o orgulho.
-	Que tal na minha casa?- ofereceu.
-	timo. Eu a ajudarei a preparar a ceia.
Ela sorriu.
-	Combinado.
-	Vou providenciar nosso planto para a vspera de Natal. Assim ,ficaremos livres no dia 25 de dezembro.- prometeu ele.
Desceu os braos pelas costas de Louise at tocar a cintura delicada e pucou-a contra si, inundado por uma satisfao que jamais experimentara, nem mesmo com Jane. Engraado...At Louise surgir em sua vida , no havia lhe ocorrido que com Jane jamais poderia ser feliz.
Louise passara a significar muito , e ele no se dera conta disso at beija-la pela primeira vez.  Apoiou o rosto no alto da cabea feminina e suspirou. Era como voltar para casa. Durante toda a vida, procurara por algo, sem jamais encontrar. E agora estava perto do que queria. Apertou-a com mais fora. 
Louise sentia seu corpo colado ao dele, mas isso no era  suficiente. Chegou-se mais, at que suas pernas se tocassem. Coltrain mudou de posio , para melhor acomoda-la. O movimento o excitou. Prendeu o flego.
-	Desculpe disse Louise , recuando um pouco. Foi impedida por ele, que a segurou pelo quadril.
-	No posso evitar isso, mas garanto que no se trata de nenhuma ameaa.- disse Coltrain. Beijou-a na tmpora, deliciado.
-	Eu no queria deix-lo pouco  vontade.
Ele riu suavemente.   
-	Eu no diria isso. Mas relaxe, porque fazer amor num estbulo no seria nada romntico. Alm disso,h muito tempo no tenho ningum- disse, zombeteiro.
Louise ergueu a cabea e o fitou com ar srio.
-	E quanto a Nickie? Vocs me pareceram bastante...ntimos.
Coltrain no riu , como ela esperava.
-	No mantenho casos a torto e a direito. E sou bastante discreto em relao  minha vida particular. H uns dois anos conheci uma viva. ramos bons amigos e proporcionvamos um ao outro aquilo que nenhum  dos dois procurava fora do relacionamento.  Mas h uns anos ela se casou e desde ento venho me dedicando apenas ao trabalho e ao rancho.
Louise no continha a curiosidade.
-	Ento voc consegue fazer isso sem...amor?
-	Ns gostvamos um do outro e era o bastante. No precisvamos estar apaixonados.  Percebeu que Louise continuava intrigada e acrescentou:- Para voc, sexo s tem sentido com amor, no ? O desejo no seria suficiente- Com  a ponta dos dedos, traou-lhe o contorno dos lbios.- Mas  eu e voc formamos uma dupla explosiva. Alm disso, voc me ama.
-	Sim, amo, mas no o suficiente para ser sua amante.
-	Pensa que no sei?
-	Ento ,  um caso perdido.
-	Ah,  ? Creio que estamos falando em algo mais srio.
-	Mas ainda no se trata de casamento.
-	Coltrain a fez calar-se com um roar de lbios.
-	Quer me deixar terminar ? Podemos ficar noivos no Natal. Depois do Ano Novo, vou tirar alguns dias de folga. Viajaremos para longe. Em lua de mel. 






Captulo VIII

-	Lua de mel?
Coltrain ergueu-lhe o queixo com a ponta dos dedos e fitou-lhe os olhos repletos de dvidas.
-	O sexo no a assusta tanto quanto o casamento, no ? Casamento significa compromisso mtuo, e isso, para voc ,  como ser condenada  priso.
Louise estremeceu.
-	O relacionamento de meus pais foi terrvel. No quero  isso para mim.
-	No sou como seu pai. E no bebo. Bem...-Riu baixinho, um riso surpreendentemente caloroso.  Bebi aquela noite, mas tive meus motivos. No suportei v-la toda sorridente, com Drew segurando-lhe a mo , quando a mim sempre repeliu...
Aquilo a surpreendeu.
-	Ento foi por isso? Quem poderia imaginar !
Coltrain deu uma risadinha.
-	Quanto ao casamento...Passaremos o Natal juntos e depois tornaremos a discutir o assunto.
Inclinou-se e beijou-a suavemente. Louise aconchegou-se a ele, que recuou.
-	Nada de afagos agora. Precisamos nos conhecer melhor antes de permitir que nosso desejo nos domine. No sou de ferro. Sorriu maliciosamente. E moveu-se em sua direo .
-	Afaste-se de mim, seu safado !.  disse ela ,rindo.- No tem coerncia o que voc diz.  Sua conversa parece uma bola de pingue-pongue,que vai de um lado para outro.
Ele tambm riu. Em seguida pegou-lhe a mo e entrelaou os dedos nos dela. A idia de se casar nunca o entusiasmara tanto como agora, nem mesmo quando estava com Jane.
Ao Ter Louise nos braos , sentira um desejo louco de despos-la. E no se tratava apenas  de atrao fsica. No entanto, primeiro precisava convenc-la a casar-se. Sabia que, apesar de am-lo, Louise tinha horror ao casamento, e com razo. Precisava faz-la entender que com eles seria diferente.


No dia seguinte, foram juntos ao hospital e , como de costume, Dana correu ao encontro dele. Ao v-La Coltrain segurou deliberadamente a mo de Louise.
-	Bom dia-cumprimentou-a polidamente.
Dana pareceu surpresa. Manteve os olhos nas mos entrelaadas.
-	Bom dia...
-	Fao questo de que voc seja a primeira a saber, Dana. Eu e Louise ficamos noivos.
A moa empalideceu, mas com algum esforo conseguiu sorrir.
-	 mesmo? Bem, suponho que devo cumpriment-los pelo grande passo.  Riu. E eu, alimentando a esperana  de que algum dia reatssemos nosso romance....
-	Isso  coisa do passado e, para mim, o passado est morto - disse ele, com certa impacincia. No tenho inclinao para ficar remoendo o que j acabou.
Dana riu, sem muita graa, e olhou para a mo de Louise,  procura do tradicional anel de noivado.
-	No estou vendo nenhum anel em seu dedo... - constatou, e no tentou esconder a desconfiana.
A mo de Louise tremeu, porm Coltrain a manteve presa com firmeza.
-	Decidimos compr-lo somente quando Louise decidir de que tipo prefere. Bem, garotas, os pacientes me esperam. At mais tarde, amor.
-	Espero voc no saguo.- disse ela.
Sorriu para Dana e seguiu pelo corredor. A moa foi atrs.
-	Espero que tenha mais sucesso que eu.  duro competir com Jane Parker. Coltrain sempre foi apaixonado por ela.- A voz de Dana revelava desdm e ressentimento.- Me envolvi naquele romance idiota com sei pai por pura raiva, julgando que despertaria o cime de Coltrain. Foi a coisa mais idiota que eu poderia ter feito.
-	Eu soube. - disse Louise, tensa.
-	Coltrain me odiou pelo que fiz. Ele  do tipo que no esquece, nem muda com o tempo. - Dana fez um muxoxo ao fitar o rosto frio de Louise. - No fim, seu pai ainda me acusou de ter sido descuidada e de ter arruinado suas chances de permanecer no hospital. Mas ele no se saiu to mal em Austin, no foi?
Louise tinha lembranas totalmente diferentes. No entanto, no poderia responsabilizar Dana por tudo o que acontecera. Haviam alcanado o quarto de um dos pacientes. Ele virou-se para entrar.  porta, parou e olhou para a enfermeira-chefe. 
-	O que mais voc sabe a respeito de Jane Parker?
-	Bem... Jane foi o primeiro amor da vida de Coltrain, seu nico amor ,durante vrios anos.  Quando voltei  cidade, julguei que a tivesse  esquecido, pois ele est casada, mas eles ainda se encontram. Ao menos socialmente.- Seus olhos verdes brilharam.  Dizem que Coltrain no desgruda dela, mas voc descobrir isso com o tempo. Eu devia estar com cime, mas sinto pena de voc. Sempre ser a segunda escolha dele, mesmo que se casem. Coltrain pode desej-la, mas jamais deixar de amar Jane.
Aps soltar seu veneno, Dana se afastou , deixando para trs uma Louise totalmente desconcertada. Era verdade que ele a desejava, mas no demonstrara nenhum sinal de amor. Ser que continuava apaixonado por Jane? Se fosse verdade, jamais concordaria em se casar com ele!
Ao terminar as visitas aos pacientes, Louise aprontou-se para encontrar Coltrain no saguo de entrada. Foi ento que avistou Nickie, que vinha pelo corredor.
-	Meus parabns-disse a enfermeira, com um ar resignado. - Eu soube que estava fora do preo quando vi vocs se beijando no estacionamento. Boa sorte! Pelo que sei, precisara de muita!- disse a loira e se afastou.


Louise ficou abatida, e isso estava estampado em seu rosto quando foi ao encontro de Coltrain. Ele a fitou com ar intrigado.
-	O que houve?- indagou-No precisa me dizer: Dana  e Nickie devem ter enchido sua cabea com bobagens. Espero que no lhes tenha dado ateno.
-	No se trata disso. A cavalgada  me deixou com o corpo dodo.- Esticou-se e tocou as laterais do corpo com as mos, esperando convenc-lo.
Coltrain fez uma expresso de alvio e sorriu.
-	Voc precisa fazer isso mais vezes, para desenferrujar-disse, e apanhou sua maleta mdica. - Vamos?
-	Sim, vamos.
Deixaram os formulrios na enfermaria, receberam mais  cumprimentos e deixaram o hospital.
-	Tiraremos umas horas esta tarde para almoar e comprar o anel de noivado. - sugeriu ele a caminho do carro.
-	Sabe que no fao questo disso.
-	Mas eu fao. No posso deixar que pensem que sou to miservel.
-	No quero que gaste seu dinheiro.
-	Como o dinheiro  meu, fao com ele o que bem entender. Certo?
-	Est bem, est bem...
Louise sorriu. Se ele fazia questo de jogar dinheiro fora, pacincia. Aquele noivado no passava de um jogo de faz de conta, uma farsa criada para desencorajar Nickie e Dana. Era verdade que Coltrain chegara a pedi-la em casamento, mas em seguida pareceu ter se arrependido. E, embora  soubesse que ela o amava, jamais mencionara a palavra amor.
Louise suspirou, desalentadamente. No conseguia esquecer os comentrios que ouvira de Dana. Era obvio que Coltrain fora apaixonado por Jane Parker. O modo como falava nela terno , solicito,quase submisso. Estremeceu ao imaginar o que aconteceria se Jane se tornasse uma mulher livre.
Seria um pesadelo viver com um homem sentimentalmente ligado a outra mulher, a quem amara durante toda a vida.
Jane  aparentemente era o vcio que Coltrain no conseguia largar.
-	Voc est muito quieta.
-	Estava pensando na asma do Sr. Fred- ela mentiu.
-	O homem precisava consultar o especialista. O que acha de recomendar-lhe o Dr. James, em Houston ?
Ele assentiu.
-	Seria perfeito. Lembre-me de dar-lhe o numero.


Trabalharam at a hora do almoo e em seguida, apesar dos argumentos de Louise contra a compra do anel, foram a um shopping no centro de Jacobsville. E, para desconforto dela, Jane Burke fazia compras na mesma  joalheria.
Era uma bela mulher, loira, olhos azuis e com um corpo perfeito. Ao avistar Coltrain, aproximou-se e abraou-o de maneira familiar.
-	Que bom ver voc!
Ele retribuiu o abrao e beijo-a no rosto.
-	Digo o mesmo! Como esto as costas? Continua fazendo os exerccios?
-	Nem penso em parar- disse ela. Segurou-o pelo brao e fitou-o com ateno.- Voc, como sempre, est em tima forma!- S ento pareceu dar-se conta da presena de Louise. Coltrain as apresentou.- Dra. Blakely?   um prazer conhec-la.
-	O que faz por aqui?- Coltrain quis saber.
-	Vim comprar um presente de Natal para minha enteada. Pensei num colar de prolas. No so lindas?- perguntou erguendo a jia.
-	Muito. Ela est morando com vocs?
Jane assentiu.
-	A me e o padrasto esto na frica, fazendo pesquisas para novo livro- disse com um sorriso.- Estamos muito contentes em t-la conosco.
-	Posso imaginar...Como vai Todd?
Louise percebeu algo forado no tom de Coltrain, e teve a triste certeza de que Dana dissera a verdade.
-	Bem . Mas temos estado muito ocupados, eu com meus cavalos e minha grife e ele com seus negcios. Tem passado muito tempo fora, e ando me sentindo abandonada.  Olhou para ele e sorriu- Venha jantar comigo esta noite.
-	Irei com prazer- disse ele, sem pensar. Depois deu um suspiro e se corrigiu- Lamento, mas no poderei ir . Tenho uma reunio com a diretoria do hospital.
-	Que pena!. Quem sabe outra noite.  Jane olhou para Louise de modo hesitante- Esto  fazendo compras de Natal?
Coltrain enfiou as mo nos bolsos da cala e sorriu.
-	Estamos procurando um anel de noivado.
-	Para quem ?- Jane indagou, espantada.
Louise queria que o cho se abrisse para ter onde se esconder. Sentiu o calor subir-lhe pelo rosto e imaginou que devia estar vermelha como um pimento.
- Eu e Louise resolvemos ficar noivos.
O jeito relutante como ele anunciou o noivado aumentou o desconforto de Louise. A expresso chocada no rosto de Jane forou-a a esclarecer:
- Na verdade,  um noivado fictcio, para fazer com que Dana e Nickie parem de assedi-lo.
- Ah, sei....- Jane relaxou- Vocs no acham que  um  pouco desonesto?
- No deixa de ser, mas  a nica maneira de desestimul-las. Ficaremos noivos at o fim do ano, quando termina meu contrato de trabalho. Depois disso, voltarei para Austin.
Coltrain a fitou sem nada entender. Louise fizera sua proposta parecer um embuste. No a pedira em casamento para espantar outras mulheres; desejava-a como sua mulher, mas ela entendera tudo errado.
Jane estava to surpresa quanto Coltrain. Conhecia-o bem  o suficiente para saber que ele jamais ficaria noivo de algum por um motivo to ftil, embora Louise Blakely parecesse pensar que sim. Aps a traio de Dana, Copper havia se tornado insensvel s mulheres, mas at ela mesma soubera do beijo da festa de Natal. Esperava sinceramente que ele tivesse encontrado um novo amor, embora achasse surpreendente que fosse a assistente com quem brigava tanto.
Mas  agora, vendo os dois  sua frente, ficou confusa. Louise parecia estar sob tortura e Copper se tornara frio e taciturno, mesmo aps afirmar que o noivado no passava de uma farsa.  Qualquer um julgaria que os dois se amavam. Mas, se fosse assim, Louise no ficaria to impassvel. O pobre Coltrain parecia alquebrado. 
-	Essa idia me parece absurda Copper. - Jane no conseguiu se conter. Olhou com ar zangado para Louise-J lhe ocorreu que poder tornar-se alvo das chacotas quando ela for embora? No percebe que essa farsa poder afetar sua reputao, sua vida profissional?
-	Aprecio sua preocupao-disse ele, gentilmente.
Louise moveu-se, inquieta, evitando olhar para os anis de brilhante no mostrurio.
-	Sua amiga tem razo. No podemos continuar com esse absurdo. - disse ela, atormentada.  Desculpem, preciso ir embora.
Saiu da joalheria   antes que as lgrimas ficassem visveis. Entrou numa loja de departamentos e foi diretamente para o toalete de senhoras. L chorou at assustar uma funcionria.
Coltrain continuou na joalheria, chocado e furioso com a atitude de Louise. Como ela pudera desistir do noivado, agora que tudo estava organizado?
-	Por Deus! E pensar que levei dias para convenc-la a me aceitar... Usei Dana e Nickie como pretexto para conseguir que concordasse com esse noivado, mas desde o incio ela relutou. , creio que desta vez no tem remdio. Ela vai mesmo partir.
-	Mas afinal, o que esta havendo? Que historia  essa de noivado fictcio? Pela sua aflio, eu diria que...
Ele moveu-se, impaciente.
-	Ela est apaixonada por mim.
-	Oh, querido...
Jane no sabia o que dizer. Esnobara a pobre moa, e provavelmente lhe dera uma impresso totalmente falsa do relacionamento que mantinha com Copper. Na verdade, eram  bons amigos e nada mais. Quase como dois irmo . E, para piorar as coisas, convidara-o para jantar, ignorando-a completamente.
-	Se eu soubesse disso, teria includo a Dra. Blakely no convite para o jantar. Julguei que vocs estivessem passeando para passar o tempo.
-	Bem, agora no adianta chorar. Acho que  melhor ir procur-la- disse ele, relutante.
-	Talvez no. Louise est magoada e provavelmente prefere ficar sozinha.
-	No posso deix-la sozinha numa hora dessas. Talvez vocs estejam certas, e isso tudo seja um grande absurdo.
-	Estou chocada. Um noivado somente para proteg-lo de duas alucinadas...H alguns anos voc as teria posto para  correr.
Coltrain no respondeu. Sua expresso fechou-se, os olhos azuis brilharam  ao fitar a ex noiva.
-	No quer conversar?- ofereceu-se Jane. 
-	No!- foi a resposta, zangada.
Agora tornara-se bvio que Louise significava   alguma coisa para ele. Jane sentiu-se ainda pior. Fez uma careta.
-	Julguei que fssemos amigos... E amigos servem para apoiar um ao outro, sejam quais forem as circunstncias.
-	Eu conversaria sobre qualquer assunto com voc, exceto  sobre  Louise.
-	Sei- Jane, atnita no incio, pareceu divertir-se.
-	E faa o favor de parar de especular, est bem?- disse ele irritado. Deu-lhe as costas.
-	Se eu fosse voc, agiria rpido. Ela parece determinada a ir embora.  Jane tinha um sorriso travesso nos  lbios ao fazer a sugesto.
-	Isso nos veremos. - Saiu  procura de Louise. Entrou na loja de departamentos e foi direto so banheiro. Sabia por instinto que a encontraria ali. Parou  porta e pediu  funcionria:- Por favor, senhora, pea   Dra. Blakely que venha at aqui fora.
-	Dra. Blakely?
-	Ela  loira, mais ou menos desta altura... - Levou a mo ao queixo,  guisa de indicao- E est usando um conjunto bege.
-	Ah, j sei. Ela  mdica? Coitada, estava chorando desesperadamente. Vou cham-la.
Coltrain sentiu-se um mostro. Fizera Louise chorar sem necessidade. Logo ela, to forte e corajosa. Se pelo menos Jane tivesse mantido a boca fechada...Era como uma irm,mas s vezes passava dos limites com seus conselhos sobre como ele devia levar a vida.
Recostou-se  parede, os braos cruzados diante do peito, e esperou. Minutos depois Louise apareceu, controlada, o queixo erguido. Tinha  os olhos ainda vermelhos, mas nem de longe parecia algum  que inspirasse piedade.
- Estou pronta. Vamos?
Ele a fitou e decidiu que no era a melhor hora para tentar convenc-la de seus propsitos. Precisavam almoar antes de ir para a clnica.
Caminhou para a sada e Louise o seguiu.
-Pensei em parar na primeira lanchonete. Hambrguer com fritas est bem para voc?
-Sim, mas prefiro comer na clnica, se no se importa. No, estou disposta a enfrentar multides.
Nem ele.


Ao chegar  clnica, Louise foi diretamente para sua sala. Comeou a comer o sanduche, com o corao sangrando. Entendia agora o que Dana queria dizer. Jane Parker era to importante na vida de Coltrain como seu trabalho e seu rancho. Nenhuma outra mulher por mais que pudesse am-lo, conseguiria competir com a ex estrela de rodeios.
Estivera vivendo num mundo irreal, mas felizmente acordara a tempo.  Poderiam dizer a todos que o noivado fora uma brincadeira. Com certeza, Coltrain poderia chegar a um bom termo com Dana e com Nickie simplesmente dizendo-lhes que no estava interessado nelas.
Passou a tarde to ocupada com os paciente que no teve oportunidade de pensar mais nisso.

Jane Parker no se conformava com o estrago que sem querer causara na vida de Coltrain. Tentava incessantemente encontrar uma forma de ajud-lo, at que uma idia lhe ocorreu. Decidiu oferecer a  Louise uma festa de despedida. Tomada a deciso, ligou para o amigo, a fim de contar-lhe a novidade. 
-Divido que ela aceite. Lousie agora fala comigo apenas quando necessrio. No consigo chegar perto dela.
Aquilo a deprimiu ainda mais.
- E se eu ligar para ela?
- No acredito que concorde em falar com voc. Ns dois estamos na sua lista negra. 
Jane suspirou
- Quem mais poderia falar com ela?
- Tente Drew Morris. Louise gosta muito dele.
- Acha que ela o ouvir?
- E por que no?
- Farei isso. Quem sabe ele consiga convenc-la.
- Quer um conselho? No convide ningum at ela ter dado uma resposta. Louise est muito magoada.]
- Eu sei. Creio que nadou ouvindo aquela velha histria.
- Qual delas?
- Sobre ns. Que continuamos apaixonados, apesar de eu estar casada.
Coltrain no havia pensado nisso. 
- Talvez, mas ela deve saber que...
Interrompeu o que ia dizendo, pensativo. Na certa Louise ouvira aquilo da boca de Dana, que sempre acusara Jane de ter sido a causa do rompimento de ambos. E, para piorar as coisas, Jane dera a Louise uma impresso errada ao trat-lo de modo to afetuoso.
- Tenho razo, no tenho?- indagou, ela.
- Deve ter.
- O que pretende fazer?Na verdade, nada. Louise no quer se casar com ningum .
- Mas voc disse que ela o amava!
- Sim, ama.  a nica coisa da qual tenho certeza. Mas no quer se casar porque o relacionamento de seus pais a traumatizou.
- Pobre garota. Que vida ela deve ter tido...
- Pior do que imaginamos- Coltrain concordou- Bem ,ligue para Drew e veja o que ele pode fazer.
- Se ele conseguir, voc vir?
- Se eu me recusar a  ir, ser um prato cheio para os fofoqueiros, logo agora que terminamos o noivado.
- E eu me tornaria o piv  da tragdia. Todd adoraria saber disso. No est acostumado com o estilo de vida das cidades pequenas.
- Bem, espero sinceramente que voc consiga o seu intento. E...obrigado.
- De que? No fui eu que o colocou nessa encrenca? O mnimo que posso fazer  tentar concertar as coisas. Manterei voc informado.


Coltrain estava intrigado com a  calma de Louise. Ela nem mesmo parecia aborrecida , ps os ltimos acontecimentos. Claro que houvera o choro no banheiro da loja. No entanto, isso poderia ter como causa muito mais do que um corao partido.
Ela no negara que o amava, mas o amor conseguiria sobreviver a um ano inteiro de indiferena? De antagonismo?
Talvez, para Louise , aquele amor tivesse sido uma espcie de hbito, do qual finalmente se livrara.
Alm disso, ele no dera nenhum incentivo quele sentimento. Sem que tivesse dado conta, acabara perdendo todas as suas chances com a mulher que amava. Mas talvez, se Drew a convencesse a ir  festa, houvesse mais uma oportunidade...Era sua nica esperana . E a ltima.


Captulo IX

No dia seguinte, Drew Morris convidou Louise para almoar. Faltava uma semana para o Natal. Jane marcara a festa de despedida de Louise para a sexta-feira seguinte, antes do Ano Novo.
- Foi uma verdadeira surpresa-Louise disse a Drew, j no restaurante. - H muito tempo voc no me convidava para almoar. O que anda tramando, hein? 
- Nada . Apenas almoar com voc.
Louise riu.
- Tente outra!
- Certo. Estou representando algum.
- Quem?
- Jane Burke.
Louise pousou o garfo no prato.
- Ridculo! No quero saber de nada que diga respeito quela mulher.
- Isso ela j sabe , por isso pediu-me  que falasse com voc. Acha que meteu os ps pelas mos e quer que eu apresente suas desculpas. Est muito deprimida e pretende fazer algo para se redimir. Quer oferecer-lhe  uma  festa de despedida.
- Diga  ela que no irei a festa nenhuma!
- Puxa vida, voc est mesmo zangada!
- E quem no estaria ? Ela praticamente me acusou de tentar arruinar a reputao de Coltrain com tantas fofocas circulando pela cidade. Mas a maioria dos boatos  sobre ele e Jane, que alm disso  casada.- exclamou ela, sem disfarar a contrariedade.
Drew balanou a cabea. 
- Tenha calma, Louise. Ela e Copper so apenas amigos.  o jque sempre foram. Quando o pai dela morreu, ele se tornou seu porto seguro. Jane passou a depender muito de Copper e esse tipo de relacionamento no se desfaz de um dia para outro. Voc e Todd precisam entender isso.
- Agora s falta voc me dizer que eles nunca estiveram apaixonados, e que Coltrain no a ama mais!
Bem que Drew gostaria , mas no tinha certeza de nada. Muito menos dos sentimentos de Coltrain. Sabia apenas que ele no ficara feliz com o casamento de Jane, e que s vezes se referia  ex noiva como se fosse a nica mulher no mundo. Mas mudara muito  aps a festa de Natal do hospital.
- Viu?- continuou ela- Voc no pode negar. Ele me pediu em casamento sem nenhuma...
- O que ? Ele pediu voc em casamento?
- Ento no soube?- indagou Louise aps tomar um gole de caf. Fez isso para tentar se livrar do assdio de Nickie e Dana. Depois decidiu que deveramos nos casar, mas ao mesmo tempo pareceu  arrepender-se.  que me pegou num momento de fraqueza, seno....- Acrescentou, sem mais detalhes.  Ento decidiu comprar-me um anel de noivado.  Fomos ao shopping e por coincidncia encontramos Jane na joalheria.
- Meu Deus!
- Ela foi muito rude comigo e Coltrain no fez nada  para  me ajudar. Para ser sincera, ele agiu como se eu no estivesse presente.
- E foi justamente isso que  mais a magoou, no ?
Louise sorriu, tristonha.
- Jamais me iludi. Coltrain no me ama.
- Ele sabe como se sente?
- Claro. No consigo esconder meus sentimentos.  fcil perceber.
Drew pegou-lhe a mo e a segurou carinhosamente.
- Pense bem ,Louise. Ser que ele no merece uma chance ?
- Permita que Jane oferea essa festa e aproveite a ocasio para esclarecer as coisas com Copper. Pergunte a ele por que resolveu pedi-la em casamento. Voc poder se surpreender.
- Nada mais me surpreende. E, alm disso, a proposta ficou no ar. Eu o amo, mas sei como os casamentos terminam.
- No diga bobagens! Vivi doze anos inacreditveis casado com a mulher que amei. Casamento  aquilo que duas pessoas fazem dele.
-	Veja o caso do meu pai. Por mais cruel e brutal que fosse, e apesar de causar muito sofrimento a minha me, ela sempre o perdoava, e permaneceu casada at a morte.
-	Aquilo no era amor, era servido. No percebe a diferena? Se fosse amor, ela teria enfrentado a situao, teria tentado ajud-lo a parar de beber, a parar de se drogar.
-	Naquele momento, Louise sentiu que pela primeira vez seus olhos se abriram para a verdade. Nunca enxergara o relacionamento dos pais daquela forma.
-	 Ela sentia medo...
-	Voc estudou psicologia e devia entender que essa sua dificuldade em aceitar a vida conjugal origina-se no fato  de ter sido criada num meio familiar anormal.- Drew acariciou-lhe a mo. Eu tive uma infncia normal, Louise.Tive pais felizes que me amaram, apoiaram e encorajaram. Quando me casei, meu relacionamento foi bom, slido e feliz. Isso  possvel! Basta existir amor e vontade de ficar juntos.
Louise olhou para a aliana que Drew insistia em usar, mesmo estando vivo.
-	Ser que  mesmo possvel ser casada e feliz?- indagou ela, aceitando pela primeira vez a possibilidade.
-	Claro !
-	Mas Coltrain no me ama. 
-	Ento faa com que ele a ama.
Louise riu.
-	Que piada. Desisti quando descobri a ligao dele com Jane, platnica ou no . No se pode lutar contra lembranas, Drew. Voc deve saber disso melhor do que eu.- De repente, um profundo silncio se abateu, at Louise indagar, ansiosa:- Drew? O que voc faria se descobrisse uma mulher perdidamente apaixonada por voc ?
-	Creio que lamentaria por ela.
-	Provavelmente Coltrain sente o mesmo por mim. Faz sentido, no acha?
-	Ele no  do tipo que se prenderia a uma mulher por piedade.
-	Mas talvez se casasse por vingana, para mostrar a Jane que tambm pode se casar.. Ou, ainda ,para se livrar de Dana.
-	Ele no seria to canalha.
-	Os homens so imprevisveis quando esto apaixonados.- Sorriu- Desejei que ele me amasse, Drew. E me casaria, apesar de todos os meus temores e dvidas, se acreditasse que havia uma chance de ele me amar.Mas no  bem assim. Se Coltrain me amasse, de uma forma ou de outra eu saberia.
Drew baixou os olhos.
-	Lamento muito, querida.
-	Eu tambm. Recebi uma proposta de trabalho de um hospital em Houston e acredito que serei contratada. Irei acertar os detalhes na segunda-feira- ergueu os olhos tristes-Sei  eu Coltrain est analisando novos currculos. Desconfio que entendeu que no estou brincando.
-	Ele disse isso?
-	No. Ns no nos falamos.
-	Entendo...
Ento estavam assim to mal? Era uma pena. Era verdade que Louise tinha bons motivos para agir daquela maneira, mas... ele? Ser que ainda amava a ex noiva?
-	Voc no conhece Jane- disse Drew- Ela no  do tipo que aprecia ofender os outros. Est muito infeliz com o que aconteceu e quer se desculpar. Por que no a deixa tentar? Ser bom para as duas.
-	Coltrain ir a festa?
-	Presumo que sim, seno haver muitos comentrios. Diro que ele est feliz por se ver livre de voc.
Louise balanou a cabea.
-	Que loucura!
-	Permita que Jane lhe oferea essa festa. Tenho certeza de que gostar da moa quando a conhecer.
-	Est bem. Diga a ela que irei.
-	timo. Voc no se arrepender. E sinceramente, espero que pense um pouco mais antes de aceitar esse emprego em Houston.
Ela balanou a cabea.
-	Preciso ir embora, recomear. Tenho certeza de que no farei falta aqui.
Drew no pde evitar um certo constrangimento. Ambos sabiam que ele fora o causador daquela situao. Dizer novamente que lamentava de nada adiantaria.
- Obrigada pelo almoo.
- Foi um prazer. Estou indo para Maryland, passar os feriados com meus familiares. Se no tornar a v-la, desejo-lhe um feliz Natal.
-  o que tambm desejo a voc, Drew.  Disse ela com afeio.



Na quinta-feira, Coltrain dirigiu-se  sala de Louise. Ela fora a Houston e estava praticamente contratada para o novo emprego. Nada lhe dissera, porm. Notou, quando ele entrou, que emagrecera e que tinha marcas escuras em torno dos olhos azuis. 
- Voc poderia ter ido falar comigo em vez de escrever.- disse ele, segurando a carta que encontrara sobre a mesa.
-  um procedimento legal.- foi a resposta educada.- Preciso agradecer-lhe pela chance que me deu. Foi excelente para meu currculo.
Coltrain olhou para a carta.
- Conheo essa equipe de Houston. So famosos na regio por praticar a medicina comercialmente. Sabe o que isso significa? Que ter cinco minutos para atender a cada paciente, e o mais superficialmente possvel. Uma sirene a lembrar que o tempo est esgotado. Alm disso, sendo a mais nova da equipe, ficar com os piores casos, com os plantes dos fins de semana e dos feriados.
- J me alertaram sobre isso.
Coltrain cruzou os braos diante do peito e recostou-se  parede, o estetoscpio no pescoo.
- Ns ainda no terminamos aquela conversa.
- Creio que sim. Nada temos a dizer um ao outro.- Louise sorriu- Notei que Dana e Nickie esto muito profissionais, at mesmo comigo. Meus parabns. Voc conseguiu.
Ele a ignorou.
- Quando pedi que se casasse comigo, tive a impresso de que havia concordado. Tanto  que chegamos a sair para comprar o anel.
A lembrana daquela tarde ainda a atormentava. Louise abaixou os olhos para a prancheta, que segurava contra o peito. 
- Ah, sim. Mas voc disse que o noivado era para que Nickie e Dana parassem de assedi-lo.
- Eu disse aquilo porque sabia que voc no queria se casar.
- E continuo no querendo.
- Ento, onde est a paixo que confessou sentir por mim?
Louise encarou-o friamente. No era hora de fraquejar.
- Paixo? Creio que eu estava deslumbrada por voc. Talvez por julg-lo fora do meu alcance.
- Entendo. Mas ficou provado que me desejava. Explique isso.
- Sou humana.  confessou ela, ruborizando um pouco.- E voc tambm me desejava.
Coltrain suspirou e durante alguns instantes somente a fitou.
- Eu soube que voc ir   festa de Jane.- disse, finalmente.
- Drew me convenceu a ir.- Louise passou a mo pela prancheta- Coltrain, quero eu saiba que entendo a sua situao com Jane, e que no culpo vocs. 
- Droga! L vem  voc outra vez com esse blblbl !Essa histria j est me cansando, no percebe?
Louise no se deixou intimidar pela aspereza daquelas palavras.
- Qualquer um juraria que voc ainda  apaixonado por ela.  fcil perceber.
- Eu era apaixonado por Jane. Admitiu ele pela primeira vez- Ela agora  uma mulher casada.. Eu seria um canalha se a assediasse.
- Sinto muito. Deve ser terrvel...
- Santo Deus! Voc no me ouve! Ser que algum dia conseguirei convenc-la de que eu e Jane somos apenas bons amigos?
- Voc tem razo, essa histria j esta cansando. No h sentido em discutir a mesma coisa. Espero que tenha encontrado algum para me substituir.
- E tive outra escolha? Seu substituto  um rapaz recm  formado que optou por clinicar no interior, para obter experincia , antes de decidir onde se fixar. Comear a trabalhar no incio de janeiro.
Louise assentiu.
-  quando estarei comeando em Houston.
- No quer passar o Natal comigo? No precisamos virar inimigos - Louise balanou a cabea, em negativa. No falou. Sabia que as palavras a sufocariam.
- Como quiser, tenha um bom Natal.
- Obrigada. Desejo o mesmo a voc.
Louise sabia que sua voz soara estrangulada, mas no pde evitar. Havia tornado impossvel uma mudana de planos, mas, na verdade, no pretendia fazer isso. Talvez Drew tivesse razo; lera e estudara sobre pessoas que eram basicamente auto-destrutivas. Terminavam relacionamentos antes mesmo que pudessem comear, eram capazes de sabotar o prprio sucesso e torn-los fracassos. Quem sabe tivesse se tornado uma delas...
De qualquer forma, isso j no importava. Desistira de Coltrain e estava deixando a cidade. Agora tudo o que tinha a fazer era sobreviver  tal festa de despedida e depois partir.
Ele parou  porta antes de deix-la e voltou-se. Fitou-a com olhos indagadores. Louise no parecia perturbada com a deciso que tomara.
- S uma pergunta. Se no tivssemos encontrado Jane na joalheria., voc teria ido em frente com o nosso noivado?
Louise apertou a prancheta contra o peito.
- Quem sabe?
Ele recostou-se  soleira, os olhos estreitados.
- Sei que poder alegar que o que vou dizer no  da sua conta, mas direi mesmo assim. Durante um certo tempo eu e Jane fomos mais que bons amigos, mas o sentimento era unilateral. Ela nunca foi apaixonada por mim. Agora est casada, ama o marido e ponto final. E quanto aos meus sentimentos por ela, posso afirmar que ficaram l atrs no passado.
- Fico feliz por voc.
- E no por voc?- pressionou ele.
Louise mordeu o lbio inferior, sem saber o que responder.Viu-lhe o olhar vagaroso descer do rosto para os seios. Ficou assim por tanto tempo que tirou-lhe o flego. Depois , os olhos azuis encontraram os dela e os prenderam. Precisou conter-se para no se atirar nos braos dele.
- Acredita que vai se ver livre de mim to facilmente, doutora- indagou ele antes de sair, batendo a porta.
Louise praguejou e tratou de apanhar a ficha do prximo paciente. Parou diante da porta da sala de exames e ,antes de entrar, esperou que suas mos parassem de tremer.


No final do expediente, Coltrain foi chamado para atendera uma emergncia no hospital. Como Louise teria que ir para l mais tarde, provavelmente o encontraria. Mas quela hora o lugar estaria lotado e ela no precisaria preocupar-se com o fato de ficar a ss  com o mdico.
No final da tarde, j no hospital, parou na sala das enfermeiras para verificar se haviam conseguido entrar em contato com o marido de uma das pacientes, que se encontrava ausente da cidade quando ocorrera a internao.
- Sim , ele  foi encontrado e j est a caminho  informou uma das garotas.
Louise agradeceu e voltou-se para sair, mas, ao fazer isso, deu com Coltrain, que vinha pelo lado oposto do corredor. Parecia mal humorado, os olhos azuis repletos de fria.
Pegou-a pelo brao e arrastou-a sem dizer uma s palavra. Ao ve-los, as pessoas sorriam maliciosamente.
- Mas o que est havendo?- ela indagou, quase sem flego.
- Quero que venha comigo e diga a um certo....- Coltrain engoliu a palavra que estava prestes a escapar dos seus lbios-... cavalheiro, na sala de emergncias, que estive na clnica durante toda a manh.
Louise balbuciou algo, mas ele no lhe deu ouvidos e tampouco diminuiu o passo. Arrastou-a para dentro da sala, onde um homem alto, loiro e irado encontrava-se sentado, a mo enfaixada.
Coltrain soltou-a e fez um sinal em direo ao homem.
- Diga a ele!
Louise o fitou, confusa, mas em seguida voltou-se para o desconhecido:
- O Dr. Coltrain, esteve na clnica durante toda a manh, senhor. Na verdade, no poderia ter feito outra coisa. Por causa dos feriados do fim do ano, estamos atendendo o dobro de pacientes que normalmente atenderamos.
O loiro relaxou um pouco, mas ainda olhava com fria para Coltrain. De repente ouviu-se um burburinho no corredor, e em seguida Jane Burke entrou na sala feito um furaco.
- Todd! O que houve ,meu bem? Cherry disse que voc sofreu um acidente.- Segurou a mo do marido e chorou.- Achei que tivesse morrido!
O homem loiro apoiou-lhe a cabea no ombro e acariciou-a gentilmente.
- Sua tolinha...- disse ele, brincalho- Prendi a mo na porta do carro, mas nem quebrou. Estou bem, salvo algumas escoriaes.
Jane olhou com desconfiana para o ar zangado de Coltrain, em seguida para Louise e finalmente para o marido.
- Mas o que est havendo aqui?- quis saber.
Todd Burke encolheu os ombros com indiferena e foi Coltrain quem explicou. Falou com ironia, esforando-se para controlar a voz:
- Seu marido julga que eu e voc estivemos juntos esta manh, e na sua casa. Isso porque o carteiro disse que viu um Jaguar prateado parado diante da sua garagem.
- E de fato deve ter visto. O carro  de uma cliente que compra roupas da minha grife. O carro  igualzinho o de Copper.-O  rosto de Todd ficou vermelho, mas ele nada disse.- Eu devia ter adivinhado! Ento foi por isso? Ficou nervoso e bateu a porta na mo? S porque o linguarudo do carteiro no faz outra coisa alm de bisbilhotar a vida alheia? Aquele idiota no perde por esperar!
- Como eu poderia saber?- Todd gaguejava, cada vez mais vermelho.
Coltrain precisou de muito autocontrole para no esmurr-lo
- Incrvel! S espero no ter mais problemas como esse desse tipo aqui!
Atirou a prancheta sobre a mesa, junto  qual Burke estava sentado. Parecia ameaador e o marido de Jane levantou-se, igualmente zangado.
- Tenham calma- a moa interveio- Aqui no  o lugar para esse tipo de coisa.
Burke hesitou; j havia feito papel de tolo uma vez e no pretendia repetir o comportamento. Olhou para Louise, que parecia to humilhada quanto ele.
- Eu sobe que estragaram seu noivado, doutora. Sabe, esses dois deveriam ter se casado. No fizeram isso e agora tentam arruinar a vida de outras pessoas.
Louise observou-o por um momento. Era surpreendente como as coisas comeavam  a se encaixar.
- Deve estar enganado, Sr. Burke. O Dr. Coltrain  o homem mais decente que conheo. No  do tipo que corre atrs de mulheres casadas. Devia confiar na sua esposa, e no dar ouvidos a boatos sem fundamente. S um idiota acreditaria em tudo que ouve.
Coltrain ficou boquiaberto diante da defesa inesperada.
- No sei como agradecer, Louise- disse Jane nitidamente emocionada-  mais do que mereo, mas, mesmo assim, obrigada- Voltou-se para o marido. Seus lbios tremiam, tamanha era a sua raiva.- Ela tem razo.Casei com voc porque o amava , e ainda amo. S Deus sabe porqu. Nunca me ouve quando digo a verdade. Prefere acreditar em estranhos.
Louise sentiu-se constrangida e no ousou olhar para Coltrain. Poderia ser acusada da mesma coisa.
- Mas tenho algo que acabar com suas tolas suspeitas. - continuou Jane- Pretendia esperar a noite de Natal para contar ,mas agora no importa mais. Estou grvida, e posso garantir que no  de Copper.
- Jane!- exclamou Todd Burke. Esqueceu-se da mo machucada e abraou-a  Isso  verdade?
- E por que eu mentiria, seu bobo?
Ele a beijou, impedindo-lhe as queixas. Meio embaraada,Louise deixou a sala. Coltrain alcanou-a no corredor.
- Talvez isso finalmente o convena.- falou, impaciente.- Agradeo por ter me defendido. Pena que voc no acredite em uma s palavra do que disse.
Louise escondeu as mos nos bolsos do guarda-p.
- Acredito que ele ame a esposa. E que nada exista entre vocs dois.
- Obrigado.
- Seja como for, aquilo que voc faz  da vida no  da conta de ningum , Dr. Coltrain, muito menos  da minha. J sou uma lembrana.
-Por livre escolha.  informou ele, com certa impacincia.
Haviam chegado ao estacionamento e pararamao lado do pequeno Ford de Louise.
- Drew amava muito a esposa e jamais se conformou com sua perda. Passa os finais de semana com os pais dela, porque isso o faz sentir-se melhor. Certa vez perguntei-lhe como se sentiria se uma mulher se apaixonasse por ele e confessasse isso. Sabe o que Drew respondeu? Que lamentaria muito por ela.
- Por que est me contando isso?
Louise o fitou. A implicao fora sutil, embora bvia.
- Porque acho que no poder amar ningum enquanto no tirar Jane da cabea.  exatamente por isso que no me caso com voc.- murmurou , num tom triste.
Coltrain a fitou.
- Creio que  melhor contar-lhe a histria desde o comeo.. Talvez assim eu possa convenc-la de que Jane faz parte do passado. Bem, ela participava dos shows de rodeios quando comecei minha carreira como interno no hospital. Caiu do cavalo e a trouxeram para mim. Tivemos uma afinidade imediata e, com isso, passei a ir v-la  montar. Samos juntos algumas vezes .Ela era especial.
- J sei que  especial. Drew j disse isso. Preciso ir agora. Adeus , Coltrain
- Ele a segurou pelo brao, provocando-lhe arrepios perturbadores pelo corpo.
- Espere, ainda h mais para contar. No entanto, com toda a afinidade que tnhamos, jamais falei de meu pai a ela.
- No?
Isso surpreendeu Louise, que julgava que entre os dois no houvesse segredos. Ergueu os olhos.   
- Curioso, no acha? disse ele, como se pensasse alto.- E h outra coisa, porm ainda no estou pronto para falar.
Viu o rosto de Louise to prximo, reparou nos lbios entreabertos e no se conteve. Abraou-a com fora, dando-lhe um beijo voraz. Depois, ergueu a cabea e acariciou-lhe o pescoo. Com os lbios, mordiscou-lhe o lobo da orelha.
Ele sabia exatamente onde tocar e beijar, deixando-a desprotegida. As mos fortes eram como brasas  no corpo feminino. Louise queria impedi-lo,mas no pode. Abraou-o carinhosamente.
- Coltrain....- gemeu, tremendo de desejo- estamos em pblico....
Ele levantou a cabea e olhou ao redor. O estacionamento estava  vazio, mas havia algumas pessoas na sada da emergncia.
- Venha at minha casa.
Louise fez um gesto negativo com a cabea, antes que sua fora de vontade fraquejasse.
- No posso.
- Vamos, seja corajosa. Voc vive analisando, pensando em  cada passo que d. Seja arrojada pelo menos uma vez na vida.. Arrisque-se!
- No sou do tipo que aceita riscos, e voc tambm no . Olhou para a porta da emergncia. Avistou Dana e Nickie, que os observavam. Fez um gesto com a cabea em direo s duas.  E voc s est tentando impressiona-las.
Coltrain olhou por sobre o ombro.
- Droga! Eu no as tinha visto!
Ela riu, soltando-se.
- Com certeza.
Entrou no carro, ligou o motor e saiu, as pernas ainda trmulas. Mais cedo ou mais tarde tero que parar de tremer, pensou. Coltrain a deixava maluca. Ainda bem que em breve partiria, e para sempre.





Captulo X



O telefone tocou alguns minutos aps Louise entrar em casa.
- Ainda est tremendo?- Era Coltrain.
- O que voc quer?
- Convida-la para passar o Natal comigo. No quero ficar o dia todo sozinho, assistindo televiso e comendo comida congelada.
Louise ainda estava ressentida. Pela Segunda vez haviam dado um espetculo em pblico  e agora seriam alvo de comentrios maliciosos durante semanas.
- No  to ruim. O descanso lhe far bem.
- Ainda prefiro um pouco mais de agitao. Se voc preparar um belo peru, prometo levar a sobremesa.
Louise hesitou. Queria muito ter algum a seu lado no Natal, especialmente Coltrain. Mas, do jeito como as coisas estavam, isso s traria mais complicaes.
Vamos l, Louise. Ser uma oportunidade de passarmos algum tempo juntos. Voc ir embora. O que tem a perder?
Nada demais pensou ela. Somente a auto estima, a honra, a virtude e o orgulho.
- Est bem. Eu o esperarei.
- timo. Estarei a s onze da manh.- E desligou, antes que ela mudasse de idia.
 Creio que me arrependerei disso o resto da vida, concluiu ela ao afastar-se do telefone.
Deciso tomada , precisou ir s compras.


Na vspera do Natal, o dia estava ensolarado e a possibilidade de nevar, segundo o meteorologista, afastada. Louise imaginou como seria bom Ter uma paisagem tpica do Natal americano.
Deixou tudo pronto para o dia seguinte, ligou a televiso e encolheu-se no sof usando um velho jeans, suter de l  e meias. Conseguira relaxar um pouco quando um carro estacionar l fora. Eram oito horas, e ela no esperava visitas.
Foi at a janela e avistou o Jaguar prateado estacionado. De dentro dele saiu um homem alto, ruivo, usando jeans, suter de couro e botas. Carregava uma grande caixa.
- Abra a porta- Coltrain pediu ao se aproximar.
- O que  isso?- ela perguntou, cheia de curiosidade.
- Comida e presentes- Dirigiu-se  cozinha e abriu a caixa.- Aqui esto todos os acompanhamentos para o peru, alm de torta de ma e bolo de chocolate com recheio de mousse. H lugar na geladeira?
- Para que tanto doce?
- Eu gosto. Voc no?
- Gosto muito.
Louise abriu a geladeira e ajudou-o a guardar as embalagens. Coltrain retornou  caixa e l tirou dois pacotinhos.
- Este eu entrego a  voc.reste outro ,voc entrega para mim
- Mas j comprei um presente para voc-protestou ela.
-  mesmo?
- Claro. O fato de eu no pretender passar o Natal a seu lado no significa que fosse deixar de comprar-lhe presente.
- Na festa de Natal todos trocaram presente, mas voc no me deu nada.
- Nem voc.
Coltrain sorriu.
- Guardei o seu presente para entregar amanh. Vamos coloc-los sob a rvore?
- Faa o favor....-Louise seguiu-o at a sala de estar.
O fogo crepitava  na lareira de pedra,sobre a qual se encontravam vrios enfeites natalinos. Diante da janela da frente havia uma enorme rvore, que Louise arrastara para dentro da casa no comeo da semana e cuja decoraao brilhava.
Mas o que mais chamou a ateno de Coltrain foi o trenzinho eltrico que ela colocara ao p da planta.
- No posso acreditar.  um American  Flyer!- exclamou, e abaixou-se para examinar mais atentamente o brinquedo.
- Foi mame que me deu. Sou fantica por trenzinhos eltricos. Tenho mais dois e quase um quilometro de trilhos guardados no armrio, mas no tive coragem de armar tudo sozinha.
- Em que armrios esto?- perguntou ele, com os olhos brilhando.
- No do corredor. Gosta de trens?
- Se gosto? Tenho uma coleo !
- Eu jamais poderia imaginar....
Louise conduziu-o at o armrio e de l tiraram as caixas. Em seguida , como duas crianas, sentaram-se no cho e passaram horas montando os trilhos. Ela preparou caf, que tomaram ali mesmo.
Quando a miniatura de uma linha frrea que passava por dento de uma vilazinha ficou pronta, a eletricidade foi ligada e o efeito foi surpreendente. Os prediozinhos iluminaram se e o trenzinho comeou a mover-se.
- Adoro ficar no escuro observando.  como se fosse uma vila de verdade, com os habitantes escondidos em suas casas  comentou ela.
Coltrain encontrava-se de bruos no cho , encantado com o brinquedo.
- Mas  surpreendente! Eu no fazia idia de que voc gostasse  de trens.
Louise riu.
- Sempre me senti culpada por mante-los dentro das caixas, quando milhes de crianas fariam qualquer para poder brincar com eles. 
- Tambm me sinto assim. Tinha oito anos quando meu av me presenteou com um desses.. Na verdade, ele estava  presenteando a si mesmo. Adorava brincar. disse, sorrindo. De repente seu rosto ficou srio.- Quando fui para Houston com papai, senti tanta falta do trenzinho quanto de meus avs.Demorei para voltar mas, quando fiz isso, o trenzinho ainda funcionava.
- Voc disse que no contou a Jane sobre seu pai...
-  verdade.  algo do qual durante muito tempo me envergonhei.
- Mas no devia. Certo ou errado, as crianas fazem sempre o que as mandam fazer.
- Eu estava ciente de que era errado, mas tinha medo de meu pai. Coltrain voltou-se e sorriu. Voc deve entender o que estou dizendo.
- Mais do que ningum. 
Ele apoiou o queixo nas mos e olhou, pensativo, para o trenzinho.
- Graas a Deus pode contar com a ajuda de pessoas bem intencionadas. Hoje procuro de alguma forma, retribuir. Por isso fiz medicina. Para poder ajudar quem precisa.
- Entendo.
Louise se ps a observ-lo. Coltrain era to diferente, assim relaxado... To mais gentil... Lembrou que logo no se veriam mais. Seu olhar triste voltou-se para o pequeno trem. O barulho dos vages soava como uma cantiga reconfortante e deliciosa em seus ouvidos.
- Voc precisa comprar mais alguns acessrios para ficar completo.- disse ele-Se houvesse alguma loja de brinquedos por perto,poderamos ir comprar. Mas j deve estar tudo fechado.
- Creio que sim.
- Se voc ficasse na cidade, poderamos juntar o que temos e formar um grande circuito. Poderamos montar as pontes e os prdios com os novos acessrios que comprarmos.
Louise admirou-se com aquele entusiasmo. No entanto,estava mais interessada em aproveitar bem o tempo que lhes restava.
- Seria muito bom, mas j assinei um contrato e tenho de cumpri-lo.
- Contratos podem ser rompidos.. H sempre uma clusula que prev estes casos.
- H gente demais comentando sobre ns, interferindo em nossas vidas. No gosto disso.
- Em cidadezinhas como esta no h como evitar.  Coltrain puxou uma pequena alavanca, que desviou os trilhos, e o trem mudou de curso.-No  uma beleza ?
- Acho- Louise riu- Se eu tivesse mais tempo livre, brincaria todos os dias.  bom estar de folga nesse fim de semana. Como conseguiu?
- Com ameaas e subornos.  brincou ele- Ns dois trabalhamos no Natal passado, lembra-se?
- Claro que me lembro. E, como sempre ,brigamos.
- Mas  as brigas eram necessrias, sabia?- disse ele, rolando no cho.- Se no brigssemos. Com certeza eu a deitaria sobre a mesa de exames e faria amor com voc a toda hora. 
- Oh, Coltrain...
- O problema era que voc se afastava bruscamente toda vez que eu aproximava. Foi o que a salvou. Desejei-a muito , doutora, e lutei contra isso como um louco- confessou ele, acariciando-lhe o rosto, explorando-lhe a boca.
- Pare com isso- ela pediu.
- Por qu? Voc gosta, e eu tambm- Aproximou-se e passou a perna sobre a dela, prendendo-a ao cho.Posso sentir as batidas do seu corao...sua respirao entrecortada...-constatou, a boca colada  dela. A mo mscula e forte deslizou at seus seios, parando ali para brincar com os mamilos.- Sente isso? Seu corpo gosta de mim.
Louise abriu a boca para protestar, mas retraiu-se. Era noite de Natal e ela amva aquele homem. No havia por que resistir.
Coltrain pareceu ter lido seus pensamentos, pois no hesitou em capturar-lhe a boca,  transmitindo-lhe uma sensao agradvel. Como numa armadilha, ela percebeu quanto estivera solitria e deixou-se prender ao peito forte. Uma onda de desejo percorreu-lhe o corpo, fazendo-a perder a noo da realidade.
- Coltrain...- sussurou.,sem saber se estava protestando ou implorando.
Ele beijou-lhe as plpebras semicerradas e provou das lgrimas de prazer que escorriam pelo rosto delicado.
-Somos muito bons juntos. At mesmo vestidos. Consegue imaginar como seria se estivssemos sem roupas?
-Ora, seu....
Louise riu baixinho.
Ele continuou a acarici-la.
-Um ano- murmurou- E nada sabamos a respeito um ao outro, absolutamente nada. Trens eltricos, filmes antigos, Pavarotti, cavalgadas... Temos mais coisas em comum do que jamais sonhei.
-Sim, temos.
Louise precisou conter-se. Queria abra-lo, beij-lo at perder o flego. Coltrain pareceu adivinhar, porque acariciou-a de modo sensual.
-No tem medo do desconhecido?- sussurou ele. 
-Sou mdica, lembra-se? Sei o que esperar.
Ele riu.
-Apenas na teoria. O que no sabe  que talvez deseje mais do que posso oferecer, e que no ltimo minuto ir soluar como uma criana.
Louise abriu a boca para dizer que Jeb Coltrain era um pretencioso, mas calou-se. Ele afastou-se, rolou no cho e deitou-se de bruos.. Sentia-se mais prximo dela do que nunca. Viu-se trmula, sedenta, e pensou que satisfaze-la agora seria tolice. No era hora.
- Voc vai ter de casar comigo quanto antes. O mais breve possvel,  Desejo-a como nunca.
Louise sentou-se e abraou os joelhos, tentando se recompor.
- Tem certeza de que realmente quer isso? E Jane?
Ele riu suavemente. L vinha ela outra vez batendo na mesma tecla ! Porm, dessa vez, no se zangaria. Sentou-se a seu lado.
- Apesar de todos pensarem o contrrio, fui eu quem terminou o relacionamento.
- Por que nunca disse isso?
- Porque no havia necessidade. Voc no me deixaria chegar perto o suficiente para descobrir o que estava acontecendo conosco. Parecia determinada a acreditar que eu era louco por ela.
- Todos diziam que voc era.
- Todos? Jamais afirmei isso.
- Tem razo.
Louise tocou-o carinhosamente.Esse simples gesto pareceu causar um terremoto.
- Louise...
Para ela, ouvir o prprio nome, dito daquele modo. Era de tirar o flego. O calor da mo de Coltrain irradiava-se por todo o seu corpo. Sentiu um anseio vvido, crepitante. Mas ficou imvel, fascinada pelos olhos azuis.
Queria muito mais do que ser beijada por aquele homem. Coltrain possua a chave de um mistrio inimaginvel. Havia uma promessa, uma oferta indizvel, na magnificncia dos msculos tensos de seus braos, na seriedade e na fora de sua expresso. Exalava intensa masculinidade, porejava um extraordinrio vigor.
Louise nunca percebera to agudamente as complexas diferenas entre homem e mulher. Nunca tivera a alegria de sentir a prpria feminilidade. Jamais ansiara por um homem como desejava Jeb Coltrain.
- No pare....- murmurou ele, guiando-lhe a mo livre para o prprio peito. O corao de Louise disparou. Fitou-o, incerta.  No permitirei que voc me seduza. Isso a deixa mais tranqila?
- Ora, que inferno! Quem lhe pediu isso? Nunca em minha vida encontrei algum to pretensioso! Talvez aquelas suas... apaixonadas tenham dito que voc  o tal, e por isso ficou cheio de empfia!
- Louise!- Segurou-a pelos braos. Trouxe-a para bem junto e beijou-a.
O abrao era protetor e amvel. Louise, lnguida, ergueu as mos, segurando-lhe a nuca,e deslizou os dedos por entre o denso cabelo ruivo.Recebeu a lngua vida, que a fazia estremecer.
Coltrain teve a irracional impresso de que se afogava. Se aquilo fosse a morte, a morte era boa. No queria se salvar. A maciez, o aroma de mulher em seus braos eram uma doce tortura, gozo e agonia.
- Coltrain?- Sussurou ela.
- Est tudo bem. No precisamos ir at o fim. Me abrace apenas.
Louise acolheu com prazer os braos que a envolveram. Sentiu a emanao quente do corpo dele, apoiou a cabea no peito amplo e forte, fechou os olhos e soltou um suave suspiro de contentamento.
Aninhados um ao outro, permaneceram na doce eternidade daquele instante. O ambiente, algum rudo l fora, tudo desaparecia numa bruma de sonho.
- Eu o quero muito...- murmurou ela- Muito !
- Eu tambm a quero, mas  mais seguro parar por aqui.
Ela atendeu, mas sentiu um ardor sensual estalar entre ambos. O instinto rebelava-se contra o afastamento.
- Oua querida. Foi por isso que terminei com Jane - disse ele, olhando os trens.
- Por que ela no quis transar com voc?- indagou Louise, morrendo de cime.
- No. Terminei porque no sentia a menor atrao sexual por ela.
- O qu? No estou entendendo.
- Ento vou repetir. Jane nunca me despertou desejo sexual, teso. Entendeu agora?


















Captulo XI

Mas a mulher tem o poder de despertar desejo em qualquer homem, se realmente  o desejar! -protestou Louise.
- Certo. S que Jane no desejava. E essa  uma parte importante do casamento, da qual eu no abriria a mo. Ao me dar conta disso, gradativamente fui me afastando. Foi ento que ela conheceu Burke, e se casaram. E aparentemente esto bem, como esta gravidez pode comprovar. - Estou feliz por eles. 
Louise concordou com um aceno de cabea.
- Eu jamais poderia imaginar que algo assim pudesse acontecer  entre um casal que se gostasse- disse ela, confusa- Veja ns dois. Voc e eu...
-  exatamente onde eu queria chegar- ele concordou, sorrindo- Quando a toco  como se tivesse tocado num fio de alta tenso.
 - Sinto o mesmo. Apesar de haver uma diferena. Voc apenas me deseja.
 - Ser mesmo? Ento como explicar a ternura que sentimos quando estamos juntos?
-  A questo  que da minha parte  amor. Eu amo voc, entendeu?
- Mas ento no sabe? Eu tambm a amo- confessou ele, os olhos brilhando.
Os sonhos podem se tornar realidade. Louise no conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Era Natal, poca de milagres, e um deles acabava de aconteceu.
Coltain nada mais disse, apenas a fitou. Aps um minuto, pegou os dois pacotinhos, que colocara ao p da rvore, e entregou-lhe um deles.
- Mas ainda no  Natal!- foi o dbil protesto dela.
- Mas  vspera. Vamos, abra.
Curiosa, Louise tirou a fita e desembrulhou a caixa de jia em veludo preto. Ento levantou a tampa.
- Oh!- sussurou com lgrimas nos olhos, enquanto fitava a pequena pea de ouro sobre o cetim branco. Com dedos trmulos, tirou a metade de um corao de ouro.- Querido, obrigada. Adorei!
Abraando-a, Coltrain beijou-lhe o rosto molhado de lgrimas.
- Disponha- sussurou- Agora, abra este outro- pediu ele. Dentro da segunda caixinha, havia a outra metade do corao.- Agora junte os dois pedaos.
Louise os uniu e ficou fascinada. Nele havia uma inscrio em francs:

PLUS QUE HIER, MOINS QUE DEMAIN.

- Sabe o que significa?- indagou ele, suavemente.
- Sei...-Louise limpou a garganta, emocionada- Mais do que ontem, menos do que amanh.
 assim o meu amor por voc. Pretendia confirmar meu pedido de casamento amanh, que  um dia especial. Mas percebi que no haver momento mais especial do que esse. Sei quanto deve estar assustada, querida, mas ns nos amamos e temos tanto em comum que dificilmente daria errado. Passada a paixo inicial, se  que vai passar, ainda nos restar muito a partilhar.
- Coltrain...
- Ainda no terminei. Sei tambm que encontraremos um meio de conciliar sua carreira com a maternidade. No sou como seu pai nem voc  como sua me. Arrisque-se, pois temos tudo para dar certo.
Louise no tinha palavras. Fitava, encantada, as duas partes do corao. De onde Coltrain tirara aquela idia to romntica? Que adorvel presente de Natal.
Enquanto isso, ele aguardava, ansioso, que ela dissesse sim a seu pedido de casamento.
- Quando foi que o comprou?- indagou Louise, ainda muito emocionada.
Logo aps termos estado na joalheria. Acredito em milagres. Vejo coisas incrveis acontecerem todos os dias no  hospital e espero que uma delas acontea agora.
- Eu...
Louise ergueu os olhos e , mesmo na iluminao  sutil da sala, brilhavam lgrimas, esperana, prazer e descrdito.
- E ento? Sim ou no?
Ainda sem conseguir falar, Louise assentiu com a cabea. Abraou-o contra o peito apaixonadamente e sentiu-se segura nos braos fortes e calorosos. 
Coltrain h muito tempo no se sentia to satisfeito. Aconchegou-a contra o peito, sem  se importar com o trenzinho apitando na curva da estrada.
- Tive medo de perder voc- confessou, emocionado- No sabia mais o que dizer, o que fazer para rete-la.
- Bastaria dizer que me amava- sussurrou ela- Seria suficiente para me fazer correr qualquer risco.
- E eu precisava dizer?
- Claro. No sei ler pensamentos.
- No seja tola. Eu a amo.
Louise enlaou-o pelo pescoo. No podia esperar nem mais um minuto para ser beijada. Quando sentiu os lbios de Coltrain nos seus,entendeu que jamais existiria outro homem em sua vida.. Seria um amor slido, sobre o qual poderiam construir seus sonhos.
Ao se separarem, ele avisou:
- Nada de noivado longo. Eu no conseguiria esperar.
- Nem eu. Que tal na prxima semana?
Antes do Ano  Novo- Beijou-a mais uma vez  E tem mais : no irei para casa esta noite, porque no posso suportar ficar longe de voc.
- Eu tambm no tenho vontade de deix-lo.
Cotrain emocionou-se com a sensao de pertencer a algum. Seria um bom casamento, decidiu. Fitou Louise nos olhos e viu os anos de felicidade que tinham pela frente.

O casamento aconteceu cinco dias depois, sem espalhafato ou luxo, numa cerimnia civil. A lua de mel seria passada no prprio rancho de Coltrain., e eles logo retornariam ao trabalho.
Aps receber os votos de felicidade e os cumprimentos dos amigos, Louise sorriu, com lgrimas de alvio e alegria inundando-lhes os olhos de mel.
Baixando a cabea, Coltrain beijou-lhe as plpebras, as faces midas e os lbios  trmulas de emoo.
- Vamos para casa, meu amor.

No rancho, por um longo momento, apesar beijaram-se e abraaram-se, deleitados com o gosto de amor plenamente correspondido. Ento, Louise tirou a camisa dele, apreciando o contato das mos nos msculos firmes, e reconhecendo que no havia pressa. Aquele homem ficaria com ela para sempre.
Coltrain repetiu os gestos, despindo-a com delicadeza. Sentiu a pele macia contra a sua, encontrando um prazer especial em saber que ela o queria pela eternidade.
- Oh, Coltrain! Eu o amo tanto que chega a doer!
E sabendo que haveria uma eternidade fizeram amor de modo lento, delicioso e perfeito. Seus lbios se encontraram seus corpos tambm, numa unio completa.


A festa de despedida que Jane Burke pretendia oferecer a Louise acabou sendo uma festa de congratulaes, pois aconteceu justamente no dia seguinte ao casamento.
O casal foi ao primeiro a chegar, e, pelo jeito como se mantinha agarrado, ficou mais do que evidente que havia muita paixo  entre eles.
- Voc pareciam dois pombinhos - disse Jane, observando-os.
- Sabemos disso- respondeu Coltrain- Falaram a mesma coisa esta manh, quando estivemos no hospital.
Quer dizer que trabalharam hoje? Em plena lua de mel?- Todd perguntou?
- Somos mdicosLouise explicou, sorrindo. - Na certa estarei examinando pacientes quando for dar  luz.
- Fico feliz que as coisas finalmente tenham dado certo para vocs- disse Todd- Quero dar-lhes meus parabns, e desculpar-me pelo que houve.
- No se preocupe, Burke. Naquele dia tambm banquei  a tola. Dei ouvidos a comentrios maldosos e com isso quase arruinei minha vida- Olhou para Coltrain com adorao- Ainda bem que os mdicos so persistentes.
- Sim, sou persistente, mas confesso que cheguei a ficar desanimado. Felizmente os trens me salvaram.
- Trens? Como assim?
- Trenzinhos eltricos- explicou Coltrain- Conhecem?
- Claro- disse Burke- So belos brinquedos para crianas.
-E para adultos- esclareceu Louise- Na verdade, os pais do a desculpa de comprar para os filhos, mas quem brinca so eles. De todo modo, quando no se tem filhos, como  nosso caso, no h desculpas.
- por isso que queremos t-los o mais depressa possvel. Precisam ver o equipamento de Louise!   maior que o meu!
Jane e Burke trocaram olhares, e no conseguiram evitar uma risada.
-Qual   a piada?- perguntou Drew chegando a tempo de participar da festa. Infelizmente perdera o casamento.
Foi Jane quem respondeu, ainda rindo:
-O equipamento dela  maior do que o dele! J viu isso?
-Essa no? Vamos danar, Louise!  Coltrain balanou a cabea e arrastou a esposa para longe do grupo, que continuou rindo.
Alguns meses depois, no dia dos namorados, Coltrain deu  esposa uma gargantilha de ouro com um pendente de rubi em forma de corao.
Louise, por sua vez, deu-lhe o resultado do exame que fizera no dia anterior. O melhor presente que ele poderia receber.
Nove meses depois, o presente foi entregue no hospital de Jacobsville, e batizado com o nome de Joshua Blakely Coltrain.

                                                           FIM


 


